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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Entrevista com Os Pontos Negros

 

 

 

O METRO falou com Jónatas Pires e com Filipe Sousa, os dois guitarristas e vocalistas d'Os Pontos Negros. A banda tem um álbum novo, chamado "Pequeno-Almoço Continental", onde nos servem rock and roll português, fresquinho para o tempo quente que aí vem. Por entre guitarras e teclados, os rapazes de Queluz - que começaram a banda na cave da igreja Baptista de Queluz - estão mais maduros e falam-nos agora de sentimentos: "Não podemos estar uma vida toda a fazer músicas sobre histórias inventadas ou coisas fúteis." Aqui fica a conversa completa que serviu de base para a peça publicada no jornal de hoje.

 

Este "Pequeno-Almoço Continental" já é material com mais utilidade?
JP – Não sei... é totalmente diferente do outro. O próprio conceito, tanto em termos de som como de estética. O que havia no "Magnífico Material Inútil" era um disco linear, muito compacto, com canções com a mesma produção e som do início ao fim. O artwork era também muito simples, quase "do it yourself". Aqui é uma coisa mais elaborada, tanto em termos de som como de grafismo. Não que achemos que o outro disco deixou de ser válido, mas este representa aquilo que a banda é agora. Mantêm-se algumas coisas, claro, que são os nossos traços característicos, mas é um passo em frente, para tentarmos ultrapassar os nossos limites.

Em que é que sentem que cresceram?
FS – Não sei se crescemos. Acho que acima de tudo estamos é mais confortáveis a tocar uns com os outros. É uma aprendizagem que se vai fazendo de disco para disco e acho que perdemos um certo medo de experimentar coisas novas. Há coisas que mudaram, mas não comprometem a essência da banda.

Nota-se mais o trabalho do Silas [Ferreira] nas teclas.


JP – É propositado! Achámos – nós e o Jorge Cruz, que produziu – que o Silas estava a ser sub-aproveitado.
FS – O Silas não, os órgãos!
JP – E o Silas também. Aliás, ele aqui até já toca mais sintetizadores. Tivemos a oportunidade de gravar com um Hammond B3 e com um amplificador Leslie, um Minimoog e mais uns sintetizadores. Às tantas já nem se via o Silas, era só trocar as mãos! Quisemos mesmo que o Silas sobressaísse, mas acho que as canções continuam a viver muito daquilo que as guitarras fazem. Agora o Silas assumindo um papel mais preponderante também dá mais espaço e liberdade para as guitarras fazerem outra coisa, além de segurarem per se as canções. É claramente uma aposta ganha e muito do som do disco deve-se também ao Silas que esteve com o Jorge a fazer as misturas.

Como é que estas canções começaram a nascer?
FS – Houve ali um momento em que os concertos acabaram, houve uma pausa, e foi aí que começámos – fizemos duas ou três feitas. Em Janeiro e Fevereiro acabámos por fazer o resto. Foi um processo simples.
JP – As minhas canções – e como temos dez, no total, dá cinco a cada um – as minhas canções são o meu 2009, posto em disco. Nesse sentido acaba por ser mais um disco pessoal do que o anterior, que vivia muito de narrativas inventadas, histórias escritas que não transpareciam a realidade. Não é confessional, mas é quase como curar as feridas, tirando-as do corpo e pondo-as no disco. Para mim é um bocado isso. Acho que uma das coisas que acho que conseguimos com este disco – e como estamos a falar de coisas que nos são caras... – acho que o sentimento consegue passar cá para fora. O mais importante é que as pessoas quando ouvem as canções que as entendam, mas também que possa ser algo mais visceral, já que a música também deve interferir com o teu corpo e fazer ter reacções que não são muito pensadas. Por isso é que se bate o pé e se dança e não se dá conta.

É mais uma mostra do amadurecimento da banda, o facto de mostrarem mais o sentimento?
FS – O ser mais sincero? Eu acho que isso faz parte da evolução natural de uma banda. Não podemos estar uma vida toda a fazer músicas sobre histórias inventadas ou coisas fúteis. Às vezes sentimos a necessidade de mandar o que está dentro cá para fora. Nesse nível sim, é mais sincero. Acho que mostra amadurecimento, sim, porque deixamos de estar preocupados com aquilo que as pessoas vão pensar e queremos escrever o que sentimos. Não estamos presos àquilo que as pessoas vão pensar.
JP – Sim, tentando sempre não fazer, de uma forma que seja básica e simplista. Já chega a quantidade de música que as pessoas ouvem que não os obriga a pensar. O disco é curto e rápido, mas não é tipo fast-food, de digestão fácil. Claro que escrever canções de amor e que falem de felicidade é muito difícil como faz, por exemplo, o Stevie Wonder. Nas palavras de outra pessoa soa a piroso, mas como é o Stevie Wonder, soa bem. É tentar dizer as coisas de forma a que as pessoas, intelectualmente, se sintam confusas e desafiadas. Por exemplo, o single, "Rei Bã", tem como refrão: “Morte ao meu sorriso”. E há pessoas que ficam confusas e não percebem porquê.
FS – Gostamos de escrever coisas de forma mais subjectiva para as pessoas ficarem a pensar. É um disco que pede mais atenção às pessoas.
JP – A partir do momento em que um artista é compreendido por toda a gente, deixa de ter interesse.

E torna os álbuns de consumo mais imediato. Mas, Jónatas, afinal o que acontecia se o Variações fosse teu barbeiro [faixa 6]?
JP – Essa música para mim é o enterrar do caixão do Variações. Já não vou escrever mais sobre ele, mas basicamente é o meu epitáfio para ele: o sujeito da canção é a música portuguesa. Ou seja, se o Variações continuasse a ser o barbeiro da música portuguesa, o seu aspecto seria muito mais aprazível. Quem ouve aquilo por ouvir pode pensar que o que eu queria era que o Variações me cortasse o cabelo.
FS – Também pode ser interpretado assim!
JP – Sim, não é vergonha nenhuma, mas esse não é o verdadeiro sentido da canção.

 

 


Nestes dois últimos anos a vossa vida mudou muito?
FS – Em Lisboa as pessoas são um bocado acanhadas, saímos à rua com a mesma normalidade. Não mudou quase nada. O que mudou foi a agenda, temos de conciliar o tempo útil da semana entre concertos e viagens e passamos mais tempo fora de casa.

Foram dois anos de mais rock and roll e tudo o que isso implica... concertos, festas e bastidores... Foram também dois anos mais pecaminosos?
JP – (Risos)
FS – Para nós são todos os dias! Não estamos livres disso.
JP – Nada disso, foram dois anos de muito divertimento e companheirismo.
FS – Temos noção que são os melhores anos da nossa vida por isso é aproveitar ao máximo, com responsabilidade. Mas não há sentimentos de culpa!

A co-produção do disco é do Jorge Cruz. Foi muito diferente de trabalhar com o Tiago Guillul? Desta vez também foram para o Norte do país gravar, nos Boom Studios.
JP – Todas as circunstâncias que moldam o "Pequeno Almoço Continental" têm que ver com o facto de termos saído de Lisboa e passado dez dias em Espinho, a termos que fazer a viagem todos os dias pela costa, o facto de estarmos só nós com o Jorge e concentrados no trabalho. No outro disco, acabávamos de gravar e íamos para casa, ter com a família... era como um dia de trabalho. Ali foi quase como ir para o estrangeiro! Mas não se pode comparar em termos quantitativos a diferença com o Tiago, com quem adorámos trabalhar. O Jorge tem uma forma diferente de trabalhar do Tiago.