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Jornal Metro

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Mind Da Gap: "Somos resistentes como as baratas"

 

Aqui fica a entrevista completa com Ace, um dos MC dos Mind Da Gap. As fotos são de André Tentugal.

 

Os Mind Da Gap estiveram quatro anos sem gravar um disco. Porquê tanto tempo?
O tempo passa rápido e nunca pensamos nesta coisa de fazer discos de uma forma muito racional e matemática. Fazemos quando temos vontade de os fazer e achamos que estamos os três sintonizados na mesma frequência para isso conseguir ser feito. Os quatro anos passaram rápido, quase nem demos conta, porque entretanto também andámos nos concertos de “Edição Ilimitada”, saiu a compilação e acho que não se proporcionou estarmos os três na tal mesma frequência.

Aconteceu alguma coisa que tenha dado o mote para arrancarem com este “Essência”?
Nada de externo, só mesmo a vontade de fazer o disco novo, de estarmos os três juntos e de voltarmos à rotina do estúdio, ouvir instrumentais, escrever temas, escolher músicas...

Fizeram o disco de forma diferente do que têm feito ao longo destes 17 anos?
Este "A Essência" talvez represente uma diferença maior em relação ao outro. Porque o álbum que gravamos é sempre uma reacção aos trabalhos anteriores. Em relação ao "Edição Ilimitada" é um simplificar de processos, dentro do seio da equipa criativa, de tentarmos ser mais directos e sem grandes floreados. Acho que acabou por ser aquilo em que pecou o anterior, mas em 17 anos de carreira, queremos ser, como dizem os americanos, "push the envelope", ou seja, procuramos sempre ser originais. Não é uma busca consciente, mas acaba por acontecer de uma forma irreflectida procurar inovar e inventar coisas que tenham interesse para as pessoas. Neste o inventar se calhar foi dar um passo atrás para podermos seguir em frente. É um bocado o regresso ao passado, ao "Sem Cerimónias" e "Suspeitos do Costume", em que não complicávamos muito a coisa, íamos pelo primeiro instinto.

É um disco mais directo à mensagem do hip-hop? Ou àquele ideal que dizem que o hip hop tem?
Também não sei! Eu ouço muitas vezes as pessoas dizerem isso e caracterizarem o hip hop como uma corrente meia política e de intervenção, mas eu não concordo com essa chapa. Acho que o hip hop, tal como o rock, é aquilo que as pessoas querem que ele seja. Tanto pode ser político – como há muitos projectos virados para aí – como pode ser algo de festa e diversão. Eu acho que este é um bocado mais interventivo e político.

Claro que o conceito do hip hop abrange vários gostos e se calhar neste “A Essência” até parece que conseguem misturar as duas facetas: a de festa, o interventivo. E também parece ter alguns momentos mais de festa e outros até dirigidos ao romantismo, talvez... Estou a falar do tema "Sintonia".
É um bocado a nossa imagem. Sempre tivemos esse equilíbrio, porque também é a música que ouvimos, não ouvimos só um tipo de rap nem educamos os nossos ouvidos a ouvir um só tipo. Na altura em que havia uma grande rivalidade nos EUA entre a costa Este e a costa Leste, nós gostávamos de projectos de ambos sítios. Para nós era estar a assistir a um filme! Havia uma preferência assumidíssima para Costa Este, mas não tinha problema nenhum em ouvir sons da Costa Leste. Assim como gostava muito de Marxman – foi um grupo assumidamente pró marxista, e foi num concerto deles no Estádio das Antas que eu e o Presto nos conhecemos! – mas também gostava de muita coisas que não era política. Desde que não fosse extrema direita, absorvemos! E acho que reflecte-se na música que fazemos, sem qualquer tipo de preconceitos. Eu costumo dizer que o único julgamento que fazemos da música é se é plástica ou se não é plástica; se tem alma ou não tem alma. Nós não acordamos sempre com a mesma vontade.

O vosso disco foi lançado no dia 26 de Abril. Foi uma data propositada? Isto porque têm temas politicamente activos, tal como "Como Conseguem", em que dizem "Não têm noção do mal que causam à minha existência", num ataque claro aos partidos políticos.
Quando começámos a aperceber de quando é que íamos ter o disco pronto – damos sempre um mês para os discos envelhecerem, como dizemos, em pipas de carvalho francês, para mandar promoção e tudo mais – fomos fazendo uns cálculos e vimos que ia calhar mais ou menos nessa altura. Pensámos que tinha piada sair no 25 de Abril, mas os discos só saem às segundas-feiras e ficou para 26. Foi bom para animar a ressaca da revolução.

Numa recente entrevista, vocês disseram que "o hip hop não vai morrer". Há muita gente a desejar essa morte?
Bem... acho que sim, deve haver. Assim como deve haver muita gente a desejar a mesma coisa do rock – ou já houve. O contexto vem do tema "Não pára", com a participação do Valete, tem que ver com o lançamento de um álbum do Nas, chamado "Hip Hop is Dead". A partir daí isso virou quase um tema do momento, sobre o que poderia acontecer. Nós achamos que não vai morrer porque vai continuar a haver tipos como nós que, independentemente das ondas e das modas, estamos aqui, somos resistentes, um pouco como as baratas, e fazemos isto com muito gosto. Enquanto assim for o hip hop não vai morrer.

 

 


O disco vai ser apresentado no dia 15 de Maio na Casa da Música. E vão tocar com o Gil Scott-Heron. Também foi uma influência para vocês?
Não é um dos nossos heróis gigantes, mas adoro a música dele e é uma lenda viva da música negra que tem um percurso muito sui generis, que disse coisas que muito pouca gente, na altura dele, tinha coragem de dizer. Há quem diga – um pouco como por cá dizem que o Sérgio Godinho foi o primeiro rapper português – que o Gil Scott-Heron foi o primeiro rapper norte-americano. São análises que gostam de fazer estas ligações sócio-antrológicas que não me fazem muito sentido. Também já ouvi dizer que o rap vem dos pauliteiros de Miranda! Mas o Gil Scott disse coisas incríveis e tive curiosidade em pegar em alguns discos que aqui tenho, ir ouvir e é incrível a actualidade da música dele. As pessoas hoje em dia ouvem um disco de rap, com alguma mensagem, e ouvem-se algumas coisas que são ditas, algumas dicas que são deixadas, umas bocas, farpas e ouve-se um disco dele e também estão lá! É incrível e triste perceber o quão pouco as coisas mudaram em tantos anos...

São temas muito actuais.
Sim, sim. E deixa a pensar: ou isto muda ou então daqui a uns 20 anos e vai haver um puto a escrever letras, a julgar que está a fazer coisas muito originais e pega num disco de Mind Da Gap e diz: “Estes gajos já escreveram sobre isso!”