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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Entrevista com Expensive Soul

 

Neste “Utopia” os Expensive Soul parecem ter crescido um pouco mais, assumiram o funk, a soul e o hip hop como linhas orientadoras e talvez tenham deixado um pouco para trás as músicas com travo a reggae. É assim?
Max – Nós tínhamos era os singles com um som mais reggae. Tivemos uma música reggae em cada um dos discos. Calhou serem os singles e parece que ficámos neste registo. Mas temos outros sons e ficámos ligados. Agora neste disco já não fazia sentido.

Como é que houve a decisão de dirigir a música para esse caminho mais específico?


Max – Fomos crescendo com isto até encontrarmos o caminho em que nos sentimos realmente bem. Começámos com 16 ou 17 anos e na altura fomos até ao R&B, ao “Dr. Dres”, Timbalands, mas começámos a ouvir outras coisas e hoje em dia já são coisas ainda mais diferentes. As nossas influências acabam por estar lá, o nosso sexto sentido também. Hoje em dia também já compramos muito vinil dos anos 60 e 70 e para este disco houve essa pesquisa, de como se gravava na altura e que tipo de material se usava.
Demo – E mesmo a nossa direcção também mudou um bocadinho. Sabes quando estás a ouvir música e já nada te bate daquela forma que te inspira, que te faz mexer e curtir. Ainda não tínhamos encontrado aquilo que queríamos fazer.
Max – Sempre foi uma salada de frutas, porque era hip hop, era soul, era funk, era reggae. Era tudo! E faltava-nos definir-nos um bocadinho. Tem a ver com a maturidade: nós crescemos, estamos mais velhos – em todos os aspectos e o disco também transparece isso um bocadinho.

Acaba por ser o resultado da consolidação da vossa ideia relativamente à música.
Max – Sim. Acredito que o próximo disco já será mais nesta linha. Podemos experimentar outras coisas, mas acho que já encontrámos o nosso caminho.

Este “Utopia” também vem um pouco na sequência do seu disco a solo, Max, o “Phalasolo”, que também era muito nesta linha. Este tem mais a vertente hip hop. E o Max dizia que eram canções que não eram muito viradas para o que os Expensive Soul faziam.
Max – Na altura eu já ouvia mais isto e se calhar o Demo não. Agora estamos mais em sintonia.
Demo – Completamente. Eu, principalmente, estava a passar uma fase complicada porque não gostava de nada do que ouvia. É incrível porque voltei tudo atrás – são coisas que já se fizeram – e encontrei aquilo que sinto. Apesar de achar que “Phalasolo” tem um registo e os Expensive têm outro.
Max – Sim, é mais instrumental. Aqui é mais o formato canção.

Nota-se mais o trabalho de equipa.
Demo – Sim. Este para já tem logo os raps, as dicas, os beats.
Max – O “Phalasolo”, para mim, foi uma aprendizagem para poder chegar aqui. Mesmo a nível de produção, por exemplo.

E para si, Demo, o “Phalasolo” também foi importante ou o gosto pela música soul e funk já vem de mais de trás?
Demo – Sem dúvida que é um disco de influência. É um grande disco, muito bem conseguido para qualquer músico, mesmo que não goste do estilo. É bem tocado, bem gravado, boas músicas, boas letras. Quando eu e o Max falámos quisemos transpor um bocado disso para Expensive, que achávamos que precisava disso.

Como foi fazer a passagem dessa concepção da música para um disco? Foi complicado?
Max – Foi natural. Muito por culpa do sexto sentido. Ouvimos muita coisa que vai ficando cá dentro. A ideia deste disco – e que foi o mais difícil – foi juntar uma sonoridade mais antiga aos beats de 2010. E acho que essa mistura foi bem concebida.

É uma coisa que salta muito ao ouvido: é um disco com um som velho. Vem da produção ou dos instrumentos?

Max – É das duas. E também da captação. Os órgãos Hammond podiam ter sido gravados directamente, mas optei por usar antes amplificadores e distorção. Também fiz isso nos baixos, os microfones usados foram os “ribbon”, de fita, antigos.
Demo – Depois acho que há outra coisa: se ouvirmos os discos dessa época, Marvin Gaye ou outros da Motown, são discos muito quentes! É tudo gravado em mesa de válvulas e fita. Hoje os discos são muito clean, limpinhos, brilhantes. Quisemos um meio-termo. Essa produção é obra do Max e foi muito bem conseguido. Acho que é um disco que dá para viajar muito mais do que os outros.
Max – É um disco que é capaz de agradar ao pessoal que gosta das coisas mais comerciais, como o single “O Amor é Mágico”, mas também há outras como “Game Over”, mais underground e alternativo.

Os sopros são também uma novidade nos Expensive Soul.
Max – Já tínhamos feito alguma coisa, mas neste disco está mais presente.
Demo – E fazia sentido, porque o registo deste disco vira-se mais para este tipo de som, para o uso de metais.
Max – Também já sabíamos que queríamos trabalhar com eles ao vivo e então pusemo-los logo em disco. Agora tocam em todas e mesmo aquelas em que não tocavam, nos discos anteriores, fizeram arranjos.
Demo – E para nós é uma combinação perfeita: temos tudo a ser tocado ao vivo em palco, é uma combinação muito mais orgânica.

E ao vivo, como vai ser passar essa sujidade toda para o vivo?
Max – Já o fizemos, mas tivemos de aumentar a banda. Agora este disco já foi pensado para ser mais fácil transpor para o vivo. Temos muitos ensaios, mas está a soar bem.
Demo – O importante são as dinâmicas – e que este disco pede muito mais.
Max – Às vezes há quatro teclados em simultâneo e isso é complicado!
Demo – E tem corrido optimamente bem! Principalmente para mim, que estive este tempo parado. Estava com fome disto, das pessoas a cantarem as nossas músicas.

O Max fez o “Phalasolo”, nesta paragem dos Expensive Soul. E o Demo, fez alguma coisa ligada à música?
Demo – Eu conciliei com a minha vida de DJ...
Max – Eu perdi dinheiro, ele ganhou! (risos)
Demo – Eu andei a ouvir muita coisa, a sacar muita informação. Mas sempre a par das coisas. O “Phalasolo” é como se fosse meu. E mais, ainda o álbum do Max não estava feito e já havia canções para Expensive.

Só mais duas curiosidades: como é que o Max, com uma voz tão grave, canta agudos desta forma?
Max – Pois, é estranho.... (ri-se)
Demo – É como o James Brown, também ninguém o percebe!

E outra: o “Phalasolo”, o seu disco a solo, foi um disco gratuito, de download na Internet. Acabou por perder dinheiro, não é?
Max – A minha ideia era fazer muitos concerto e isso não aconteceu. Só dei dois... E 2009 foi um ano muito mau. Só algumas bandas é que fizeram concertos e passou-nos ao lado. Mas eu cheguei às pessoas que queria chegar. Mas fiquei com pena de não ter tocado mais porque preparei tudo para ficar muito porreiro ao vivo, com uma banda do carago!
Demo – Mas este ano já está melhor, acho que as pessoas já se começaram a organizar.

Pensa em voltar a repetir essa experiência?
Max – Por exemplo, se fizer um seguimento de “Phalasolo” talvez faça a mesma coisa!  Porque a solução não está em vender discos. Mas percebo que quem gosta de música queira ficar com uma recordação. Lembro-me que havia muitas pessoas que queriam mesmo comprar o disco.
Demo – Chegámos a ponderar em lançar este “Utopia” apenas em vinil. Vamos editar uma edição especial em breve. Antes prefiro mil vezes ouvir um vinil. Quem quer música digital tem o iPod.

 

Entrevista com The National

 

 

 

O METRO falou com Aaron Dessener, um dos compositores da banda. Foi na garagem dele, em Brooklyn, que os The National construiram o estúdio onde gravaram o sucessor do aclamado "Boxer". "High Violet" é o novo disco do grupo de Matt Berninger, Aaron e Bryce Dessner, Bryan e
Scott Devendorf. A 18 de Julho vamos poder vê-los no festival Super Bock Super Rock.

 

Como foi ir para estúdio depois do sucesso de "Boxer"? Foi difícil fazer este disco?
Acho que foi mais fácil, porque construímos um estúdio na minha garagem, nas traseiras da minha casa, em Brooklyn. E isso parece que deu uma espécie de naturalidade e um tom caseiro ao disco. Foi um processo mais orgânico e com menos pressão. Para nós o mais difícil é acabar as músicas...

Essa é outra história, mas já lá vamos! Então este álbum foi como fazer um disco em casa.
Sim, porque o meu quarto é, literalmente, ao lado da garagem. Eu acordava e ia para lá. Foram 13 meses a experimentar e a gravar músicas, muitas delas que nem sequer estão no disco. É um disco muito épico, grandioso, mas com esse tal toque caseiro. Carrega uma humildade.

Essa ausência da pressão de um estúdio tem reflexo na música?
Podemos ser mais espontâneos nas nossas ideias, na bateria, nas guitarras. No estúdio estamos quase sempre a dar o máximo, porque estamos a alugar o espaço. Não é que seja mau, estarmos a esforçar-nos, mas quando estamos em casa – e na garagem – toda a gente sabe que pode repetir um milhão de vezes. Acho que o "Boxer" é um álbum incrível, mas é muito polido, muito considerado. Este "High Violet" é mais orgânico, mais casual, mais complexo.

Conseguimos ouvir mais algumas orquestrações, por exemplo.
Sim, acho que se deve a podermos ter tido o tempo para trabalhar que quisemos. É um disco mais elaborado, nota-se isso na textura, mais sólida, e acho que isso se deve à orquestração.

 

 

 

 

Estava a falar da dificuldade de finalizar uma música nos The National. Que história é essa? A que se deve isso?
Acho que é porque há cinco opiniões na banda, todas elas muito conscientes. Não há apenas um compositor que traz músicas, mas antes um processo colaborativo. É uma coisa muito democrática e encontrarmos um ponto central em que todos nos entendamos, estes cinco homens, é uma guerra! E depois somos todos ouvintes obssessivos de música e queremos fazer música que nós gostemos. Sabemos que não é fácil fazer boa música. Música fácil é o mais fácil de se fazer, até porque nós fazemos muita. E deitamos fora. É importante ter a sabedoria de deitar fora as músicas mais fáceis, mais óbvias, mais convencionais. Não é que estejamos a tentar reinventar o rock and roll, só queremos é fazer músicas honestas com emoção e sentido.

O facto de o Matt apenas cantar ajuda ou dificulta o processo de composição?
Acho que torna mais difícil. Ele não toca nada. Canta, escreve, arranja umas melodias. Ele demora muito tempo e nós escrevemos muitas músicas para ele que ele nem sempre acha interessante. É um processo estranho, sabes? Não é intuitivo, é idiossincrático. Parece que andamos em falsas partidas, más experiências até chegarmos àquilo que achamos que é o melhor. Mas calculo que é o que faz qualquer compositor: tentar tudo e procurar aquilo que é especial. Mas não faz mal que o Matt não toque nada, é quem ele é!



Parece que existem alguns conflitos na banda. Mas também são esses conflitos que fazem com que os The National criem música? Estarei certo?
Bem... talvez... Não são conflitos pessoais, são fricções. Nós já somos uma banda há mais de dez anos e quando fazemos um álbum é um processo de criação muito intenso, porque sabemos que o vamos estar a tocar depois durante dois ou três anos. Todos nós nos preocupamos muito. Há fricções, tensões e lutas, mas acho que dessa tensão e frustração sai boa música, sim... Adorava que fosse mais fácil, mas acho que o som da banda vem mesmo deste processo. Mas não deixa de ser divertido.

Até porque os cinco membros da banda terão bom gosto em música. Isso também não facilita, será cada um a puxar para o seu gosto.
É verdade. Ninguém vive isolado e acha que aquilo que ouve e escreve é que é de génio. Estamos muito consciente de toda a música e quando pomos um álbum cá fora é para partilhar com a melhor música que já foi feita. Nós não conseguimos comparar, mas os nossos fãs costumam fazê-lo e isso é bom!

Já começaram a apresentar o disco ao vivo?
Estreámos em Londres, em dois concertos. Estamos entusiasmados, porque temos muitas músicas e é uma experiência interessante para o público.

Qual foi o feedback que tiveram do público?
Têm sido óptimas. Sentimos que as pessoas estão a gostar. Mas a nossa música costuma demorar algum tempo a entrar nas pessoas... não sei porquê. Mas agora já está na net. Acho que vai ser interessante ver como é que as pessoas reagem às novas canções.

Qual é a sua opinião sobre os downloads de álbuns na Internet? A favor ou contra?
Eu tenho uma opinião ambivalente. Acho que são excelentes para a música, porque as pessoas ouvem mais música e isso é bom para as bandas. Mas eu, se puder, compro o disco porque gosto e tenho em conta a qualidade. Mas é uma realidade inevitável, que as pessoas fazem o download ilegal de música. Mas eu prefiro que as pessoas conheçam mais a música, por isso é algo que não me faz perder o sono.

Vêm este Verão para tocar no Super Bock Super Rock. Têm boas memórias?
Adoramos tocar em Portugal! É, de longe, um dos nossos países preferidos para tocar. Tivemos um concerto espectacular, perto do Porto, em Guimarães, memorável, há dois anos. Um dos melhores. O ambiente em Portugal, a paixão das pessoas pela música, é algo de extraordinário. Vamos no Verão e sei que voltamos depois, de certeza.

 

 

 


É curioso que a vossa música não aparece muito nem na rádio nem na TV. Mas conseguiram criar um hype interessante à vossa volta. Como se explica?
Brincamos e dizemos que somos uma espécie de banda de sussurros nos becos. As pessoas falam de nós em surdina! Beneficiamos muito do boca a boca e da paixão que os fãs têm por nós e em Portugal é algo em que isso salta muito à vista. Noto isso com outras bandas, também em Portugal: por exemplo, os Arcade Fire, quando tinham editado apenas o "Funeral", tinham 20 mil pessoas a cantar as músicas deles. Há uma cultura underground em Portugal muito forte. Nós, se calhar, só agora é que estamos a sair um bocadinho desse movimento e a prestarem-nos mais atenção.

Os media tratam-vos bem?
Acho que sim, a maioria. Temos sempre um grupo de pessoas que nos ouvem rapidamente e muito casualmente. E daí vêm os rótulos. Não são essas as pessoas que devem ouvir a nossa música, porque não é nada superficial. Tem várias camadas, muito significado. O próprio espaço entre as palavras é importante... gostamos mais das pessoas que dedicam tempo aos discos e que respondem pessoalmente ao que lá está.

 

 

 

Luz Casal: "Um bocadinho de aventura é sempre necessária"

Aqui fica a entrevista completa com a cantora espanhola, Luz Casal, a propósito do seu primeiro disco de boleros, "La Pasión". Encontrámo-la num hotel em Lisboa, entre várias viagens de promoção deste novo trabalho. Luz estava cansada, mas grata pela vida que sente voltou a reconquistar depois de ter ultrapassado um cancro, em 2007.

 

Quando li o nome do disco, “La Passión”, pensei que falasse mais de felicidade. Mas encontrei um álbum mais sofrido, de desencontros, de zangas e distâncias. São as coisas do amor, digo eu.
É verdade, são as coisas do amor e da vida. É assim! A primeira coisa que quis fazer foi um disco de homenagem ao bolero e o bolero é assim. Há uma canção que se chama “No, No y No”, que é quase frívola. A paixão é, fundamentalmente, uma atitude, mas fala de coisas do coração.

Quais são as suas paixões?
Viver, da maneira mais profunda e completa possível. Tirar proveito da vida, estar hoje aqui, num ambiente muito requintado e depois sair à rua, e caminhar. São as coisas mais belas e artísticas.

Nesta homenagem ao bolero canta músicas de outros compositores. O que é que encontrou nessas letras que a seduziram a cantá-las?
O bolero é um género de música em que as melodias são quase sempre muito belas. As histórias têm sempre detalhes cantados em espanhol, mas que variam consoante os países, como do Chile, Panamá ou México. O castelhano pode ser diferente. Mas o que me fascinou foi que eu, que pertenço ao pop e ao rock, pude cantar canções assim, que estiveram num ambiente muito diferente, com novos som e arranjos, que formam um espaço e uma maneira de cantar diferente. E eu adoro descobrir autores e compositores de diferentes países, homens e mulheres, que fizeram canções há muitos, muitos anos. Neste caso, nos anos 40 e 50.

A Luz cantou pela primeira vez um bolero no filme de Pedro Almodóvar, “Pensa em mim”, há 18 anos. Foi aí que descobriu o bolero?
Profissionalmente sim, porque descobrir o bolero é como descobrir o fado: se procuras, encontras tesouros. Todo o mundo latino conhece.

Mas profissionalmente foi nessa altura.

Foi aí que senti que era um género de música que tinha acompanhado até os meus pais e os meus avós.

E porquê só agora um disco de boleros?
Porque sim! (risos). Há muitas pessoas que pensam que eu ia fazer este disco depois do filme. Mas não era o momento, não sentia. Não  gosto de fazer as coisas de forma fácil. Acho que um bocadinho de aventura é sempre necessária. Foi em 2007 que, num dia como o de hoje, que me levantei da cama, e disse: "vou fazer o disco. Agora sim."

Parece notar-se alguma emoção na sua voz e nas suas palavras. A gravação deste disco foi mesmo assim, emocionada, ou é a sua forma de cantar?
A forma podia ter sido ainda muito mais expressiva, mas quando tenho palavras e melodias que saem do interior, canto dessa forma. Num concerto que canto canções como “Pedaço de Cielo” ou “Rufino” – sobre uma forma frívola de ser – faço-o de forma diferente, variada. Do meu ponto de vista, é uma sorte poder cantar canções com vários sentimentos. As gravações são quase as originais, que cantei com os músicos. Por exemplo, a “Con Mil Desenganos” estava constipada, com a voz apanhada, e ouve-se eu a tossir! Mas segui.

A última música do disco chama-se “La Cigarra”. Por que é que a deixou para o fim?
Bem, não é um bolero. É das canções mais recentes, escrita pela compositora argentina Maria Helena Walsh. Quando ouvi a canção pensei: “Esta é uma boa canção, apareceu na minha vida neste momento... e tem uma frase que me tocou especialmente: “Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, Sin embargo estoy aquí resucitando”. Estava num período de tratamento contra o cancro, pensei que era uma frase muito sugestiva para dizer às pessoas: “São palavras escritas por outra mulher, não por mim, mas o sentimento é o mesmo que vivo”.

A Luz é vista como uma mulher com muita garra e muita força. De onde vem?
(ri-se). Queria saber-se para colher e não soltá-la! Acho que tenho na minha vida muita ilusão pelas coisas, por crescer, por ampliar o conhecimento sobre a música e das pessoas. É como ter o olhar de uma criança. Creio que guardo o espírito dos meus primeiros anos praticamente intactos, ainda que tenha as minhas decepções, como todos. Mas quando se trabalha com o corpo, com as emoções, é muito desgastante. É como se esfregasse muito a pele e chegará a um momento em que não há pele, só haverá o osso. É difícil, mas tenho a sensação que a força vem, sobretudo, da minha ilusão.

A ilusão dá-lhe uma pele dura!
Eu não... sou muito frágil! (sorri)

É apenas aparente.
A minha mãe diz que eu sou como as princesas dos contos de fadas: se me puserem uma ervilha na cama, eu noto!

Uma das coisas que se fala muito nas suas entrevistas é a sua doença. Isso também foi importante para a forma como canta hoje?
Acho que sim, tudo o que vivo reflecte-se na música: as músicas que escrevo ou que canto. Mas não posso dizer que o que canto é graças a isso. São experiências duras da vida, doenças quase mais da alma do que do corpo. Acho que não há ninguém que esteja preparado para estas situações e, no meu caso, vai saindo-se pouco a pouco. Fortalece-se o pensamento. No meu caso, comecei a fazer o disco “Vida Tóxica”, durante o tratamento.

É um estilo que quer continuar a fazer e talvez a escrever?
Quem sabe? O que tenho claro é que sou uma pessoa versátil e interessada na música, em geral. Tenho interesses diferentes e é um estilo que sei que posso fazer, mas do futuro não sei nada...

 

 

 

Sonic Youth, a ternura dos 30

Foto de Sage Ranaldo, filho de Lee

 

Lee Ranaldo, guitarrista e fundador dos Sonic Youth, em entrevista ao METRO. Lee toca hoje, quarta-feira, na Galeria ZDB, com Rafael Toral (€10] e amanhã, quinta, e depois, sexta-feira, nos Coliseus de Lisboa e Porto, respectivamente. Os Sonic Youth celebram, em 2011, 30 anos de carreira.

 

O que vai tocar no concerto com o Rafel Toral?
Vai ser um concerto entre aquilo que eu costumo tocar, mais o que o Rafael toca. Nós partilhamos muito os mesmos interesses na música e trabalhámos juntos algumas vezes, entre amigos e colaborações. Acho que é, basicamente, um encontro de improvisos. O Rafael vai tocar um par de gongos e eu vou tocar a guitarra eléctrica. Vamos ver o que acontece.

Este espectáculo tem que ver com aquilo que costuma fazer a solo, de experiências sonoras, com guitarras penduradas no tecto, ou aquilo que fez com o projecto Text Of Light?
Até certo ponto será algo desse género. Tenho estado a experimentar a guitarra pendurada no tecto, através de cabos. Os Text Of Light é outra abordagem, mas também é um grupo de improviso, entre pessoas que partilham o mesmo vocabulário musical. Mas neste concerto com o Rafael acho que vai haver um certo aspecto meditativo. Vamos trabalhar entre os gongos e as guitarras.

Já alguma vez experimentou fazer isto com o Rafael?
Com o Rafael não. Mas já fiz algo similar com outra pessoa a tocar gongos, há uns dez anos. Mas tenho certeza que o Rafael tem qualquer coisa de especial para mostrar.

Este tipo de experiências musicais que faz fora dos Sonic Youth são também importantes para o trabalho que faz depois em conjunto com a banda? Ajuda-o, de certa forma, a libertar a sua criação?
Acho que se pode dizer isso. Mas nesta altura tornou-se uma parte muito natural da vida. Faço-o com alguma frequência. É uma espécie de criação e também muito pura, por ser espontânea, por não ser planeada. É muito o oposto de andar na estrada com uma banda a tocar canções e a tentar tocar canções que, até certo ponto, vão ser sempre as mesmas, todas as noites. O improviso é sempre diferente, o que acaba por ser até uma própria surpresa a nível pessoal e também um desafio.

Como guitarrista, estes concertos e experiências também podem ser aproveitadas para algo nos Sonic Youth?
Claro. Isso acontece sempre. E com todos. Porque todos nós fazemos outras coisas fora do grupo. E usamos estas inspirações quando a banda se reúne para trabalhar outra vez. Ajuda a manter as coisas equilibradas, de forma saudável. Pode ser muito refrescante tocar com variados músicos, experimentar coisas diferentes e depois levar essas ideias de volta para os Sonic Youth.

Vai passar uns dias aqui em Portugal, depois com dois concertos dos Sonic Youth, no Coliseu de Lisboa e Coliseu do Porto. São boas as memórias dos shows por cá?
Muito boas, mesmo. Sinto que os meus tempos em Portugal foram mesmo muito especiais e estou ansioso para voltar.

 

Falando um pouco dos Sonic Youth: como é que ao fim de 30 anos de banda convivem uns com os outros, agora com famílias pelo meio e tudo mais?
São apenas questões logísticas. Ainda mantemos o estúdio aqui em Nova Iorque onde trabalhamos. [Pausa] Algumas coisas mudaram, ao longo desse período de anos, mas a banda ainda se define por nós os quatro e pelo nosso interesse sobre as coisas, pelas coisas que tentamos alcançar. Quando nos juntamos, em certos aspectos, há algumas coisas que mudaram – sobretudo as famílias e mudar de casa – mas há aspectos que não mudaram nada. Há uma personalidade constante em cada um de nós. E acho que temos uma confiança muito grande no facto de fazermos algo interessante quando os quatro estão juntos...

Ainda mantém as mesmas fórmulas de trabalho, com uma grande democracia em estúdio?
Sim, é uma banda em que cada um tem direito à opinião e toda a gente trabalha para construir as canções, de maneira igual. Mas a forma como se criam canções, ao fim de mais de 30 anos, mudou um bocadinho. Queremos mudar as coisas, porque queremos inovar, mas não podemos mudar quem somos.

A propósito das famílias: é verdade que o seu filho mais velho, o Cody, também participou no último disco, “The Eternal”?
Acho que ele gravou algumas coisas, mas não chegou a tocar no disco. Fez foi algumas das fotografias do disco!

Ele também é músico, não é? Acha que foi buscar muitos genes artísticos ao pai?
Bem, não sei, mas espero que sim. Ele vai fazendo a música dele, é muito bom fotógrafo e há muitos interesses que partilhamos, nesse sentido.

Também o ajuda na música dele, ou vice-versa? Ele também lhe dá opiniões sobre a sua música?
Eu não o ajudo muito. Falamos algumas vezes, mas acho que há uma distância saudável. Ele sabe tanto o que nós [Sonic Youth] fazemos musicalmente que acho é melhor deixá-lo fazer as coisas por ele e não moldá-lo face às minhas ideias. Prefiro dar-lhe espaço.

No ano passado lançaram o “The Eternal”, mas já se diz que os Sonic Youth estão a pensar noutro disco e a querer ir para estúdio.
Bom, para já não estamos a pensar no novo disco. Ficámos muito felizes com o “The Eternal”, porque diz muito sobre o estado actual da banda. Sentimos que o disco foi muito bem sucedido e a digressão que fizemos também foi excelente. Foram uma série de canções que deram um enorme prazer tocar ao vivo. Por tradição este ano já estaríamos a pensar fazer outro álbum, mas tivemos tanto sucesso que voltar ao estúdio era repetir-nos. Então queremos fazer uma pausa este ano, aproveitar cada um de nós para projectos pessoais, afastarmo-nos um bocadinho da banda porque isto não pode ser um ciclo que arranca automaticamente.

É como o vinho: convém deixar descansar para depois saber melhor.
Exactamente!

Mas estão a preparar um DVD para este ano, certo?

Há muitos projectos que estamos a preparar. Esse DVD é sobre uma série de concertos que fizemos em 2008, do disco “Daydream Nation”. Vamos misturar imagens desses concertos com imagens de nós a gravar e a tocar esse disco em 1988 e 1989. Também temos um filme de 1991 a tentar publicar em 1991 e outro, imagens nunca vistas da digressão de 1986, do disco “EVOL”. Vamos ver se sai este ano.

Gostava de saber também a sua opinião sobre a cidade que vos viu evoluir, Nova Iorque. É um local especial em termos da história da música e da arte, sempre foi. Mas há quem diga que existe uma era artística antes e depois do mayor Rudolph Juliani, que acabou por influenciar o movimento. O que acha disto?
Bem, isso é verdade, existem essas duas eras. Mas cada uma delas tem coisas boas e coisas não tão boas. Mas de uma forma geral, Nova Iorque é uma cidade que vive e respira sobre os diferentes períodos, está em constante evolução. É um pouco o fascínio do local: há sempre coisas muito poderosas a acontecer, mesmo que sejam completamente diferentes de um tempo para o outro. Falando especificamente do que fez Juliani, o que aconteceu foi que, quando chegou, a cidade era muito mais sem lei e perigosa, mesmo fisicamente! Era complicado viver, havia muitos elementos de perigo, nos anos 70 e 80. Mas havia liberdades e podia encontrar-se um sítio barato para viver. É importante não esquecer que é uma ilha e funciona isoladamente. Eu comparo muito a Berlim, antes de o mundo cair – no sentido de estar muito isolada dentro dos EUA, com as suas ideias e estruturas. O que o Juliani fez foi limpar a cidade em vários sentidos. Poderia ter uma certa sujidade encantadora e isso perdeu-se. Também ficou uma cidade cara para viver, mas também mais segura. Hoje em dia é mais ou menos como outra cidade norte-americana, com lojas que nunca se viam, por exemplo, o K-Mart, que há em todo o lado. Perdeu algum sentido de individualidade, mas ganhou a segurança.

Ainda assim, sente falta desses dias, de quando era diferente?
Bem, nem por isso, porque experienciei e vivi esses dias. De forma geral, a ideia de mudança numa cidade costuma ser boa. Não lamento a perda desses aspectos. De certeza que no passado também aconteceram outras coisas que adorava ter visto, da mesma forma que fico feliz de ter vivido períodos como os do “Max’s Kansas City” ou o “CBGB” [night clubs de 1970, em Manhattan]. É apenas uma consequência da evolução das cidades.

 

 

Lee Ranaldo, a solo, no Chile, em Março de 2009

 

que vai tocar neste concerto que vai fazer com o Rafel Toral?
Vai ser um concerto entre aquilo que eu costumo tocar, mais o que o Rafael toca. Nós partilhamos muito os mesmos interesses na música e trabalhámos juntos algumas vezes, entre amigos e colaborações. Acho que é, basicamente, um encontro de improvisos. O Rafael vai tocar um par de gongos e eu vou tocar a guitarra eléctrica. Vamos ver o que acontece.

Este concerto tem algo a ver com aquilo que costuma fazer a solo, de experiências sonoras, com guitarras penduradas no tecto, ou aquilo que fez com os Text Of Light?
Até certo ponto será algo desse género. Tenho estado a experimentar a guitarra pendurada no tecto, através de cabos. Os Text Of Light é outra abordagem, mas também é um grupo de improviso, entre pessoas que partilham o mesmo vocabulário musical. Mas neste concerto com o Rafael acho que vai haver um certo aspecto meditativo. Vamos trabalhar entre os gongos e as guitarras.

Já alguma vez experimentou fazer isto com o Rafael?
Com o Rafael não. Mas já fiz algo similar com outra pessoa a tocar gongos, há uns dez anos. Mas tenho certeza que o Rafael tem qualquer coisa de especial para mostrar.

Este tipo de experiências musicais que faz fora dos Sonic Youth são também importantes para o trabalho que faz depois em conjunto com a banda? Ajuda-o, de certa forma, a libertar a sua criação?
Acho que se pode dizer isso. Mas nesta altura tornou-se uma parte muito natural da vida. Faço-o com alguma frequência. É uma espécie de criação e também muito pura, por ser espontânea, por não ser planeada. É muito o oposto de andar na estrada com uma banda a tocar canções e a tentar tocar canções que, até certo ponto, vão ser sempre as mesmas, todas as noites. O improviso é sempre diferente, o que acaba por ser até uma própria surpresa a nível pessoal e também um desafio.

Como guitarrista, estes concertos e experiências também podem ser aproveitadas para algo nos Sonic Youth?
Claro. Isso acontece sempre. E com todos. Porque todos nós fazemos outras coisas fora do grupo. E usamos estas inspirações quando a banda se reúne para trabalhar outra vez. Ajuda a manter as coisas equilibradas, de forma saudável. Pode ser muito refrescante tocar com variados músicos, experimentar coisas diferentes e depois levar essas ideias de volta para os Sonic Youth.

Vão passar uns dias aqui em Portugal. São boas as memórias dos concertos por cá?
Muito boas, mesmo. Sinto que os meus tempos em Portugal foram mesmo muito especiais e estou ansioso para voltar.

Falando um pouco dos Sonic Youth: como é que ao fim de trinta anos de banda convivem uns com os outros, agora com famílias pelo meio e tudo mais?
São apenas questões logísticas. Ainda mantemos o estúdio aqui em Nova Iorque onde trabalhamos. [pausa] Algumas coisas mudaram, ao longo desse período de anos, mas a banda ainda se define por nós os quatro e pelo nosso interesse sobre as coisas, pelas coisas que tentamos alcançar. Quando nos juntamos, em certos aspectos, há algumas coisas que mudaram – sobretudo as famílias e mudar de casa – mas há aspectos que não mudaram nada. Há uma personalidade constante em cada um de nós. E acho que temos uma confiança muito grande no facto de fazermos algo interessante quando os quatro estão juntos...

Ainda mantém as mesmas fórmulas de trabalho, com uma grande democracia em estúdio?
Sim, é uma banda em que cada um tem direito à opinião e toda a gente trabalha para construir as canções, de maneira igual. Mas a forma como se criam canções, ao fim de mais de 30 anos, mudou um bocadinho. Queremos mudar as coisas, porque queremos inovar, mas não podemos mudar quem somos.

Falando de famílias: é verdade que o seu filho mais velho, o Cody, também participou no último disco, “The Eternal”?
Eu acho que ele gravou algumas coisas, mas não chegou a tocar no disco. Fez foi algumas das fotografias do disco!

Ele também é músico, não é? Acha que foi buscar muitos genes artísticos ao pai?
Bem, não sei, mas espero que sim. Ele vai fazendo a música dele, é muito bom fotógrafo e há muitos interesses que partilhamos, nesse sentido.

Também o ajuda na música dele, ou vice-versa? Ele também lhe dá opiniões sobre a sua música?
Eu não o ajudo muito. Falamos algumas vezes, mas acho que há uma distância saudável. Ele sabe tanto o que nós [Sonic Youth] fazemos musicalmente que acho é melhor deixá-lo fazer as coisas por ele e não moldá-lo face às minhas ideias. Prefiro dar-lhe espaço.

O ano passado lançaram o “The Eternal”, mas já se diz que os Sonic Youth estão a pensar noutro disco e a querer ir para estúdio.
Bom, para já não estamos a pensar no novo disco. Ficámos muito felizes com o “The Eternal”, porque diz muito sobre o estado actual da banda. Sentimos que o disco foi muito bem sucedido e a digressão que fizemos também foi excelente. Foram uma série de canções que deram um enorme prazer tocar ao vivo. Por tradição este ano já estaríamos a pensar fazer outro álbum, mas tivemos tanto sucesso que voltar ao estúdio era repetir-nos. Então queremos fazer uma pausa este ano, aproveitar cada um de nós para projectos pessoais, afastarmo-nos um bocadinho da banda porque isto não pode ser um ciclo que arranca automaticamente.

É como o vinho: convém deixar descansar para depois saber melhor.
Exactamente!

Mas estão a preparar um DVD para este ano, certo?
Há muitos projectos que estamos a preparar. Essa história do DVD é sobre uma série de concertos que fizemos em 2008, do disco “Daydream Nation”. Vamos misturar imagens desses concertos com imagens de nós a gravar e a tocar esse disco em 1988 e 1989. Também temos um filme de 1991 a tentar publicar em 1991 e outro, imagens nunca vistas da digressão de 1986, do disco “EVOL”. Vamos ver se sai este ano.

Gostava de saber também a sua opinião sobre a cidade que vos viu evoluir. É um local especial em termos da história da música e da arte, sempre foi. Mas há quem diga que existe uma era artística, em Nova Iorque, antes e depois do mayor Rudolph Juliani, que acabou por influenciar a arte. O que acha disto?
Bem, isso é verdade, existem essas duas eras. Mas cada uma delas tem coisas boas e coisas não tão boas. Mas de uma forma geral, Nova Iorque é uma cidade que vive e respira sobre os diferentes períodos, está em constante evolução. É um pouco o fascínio do local: há sempre coisas muito poderosas a acontecer, mesmo que sejam completamente diferentes de um tempo para o outro. Falando especificamente do que fez Juliani, o que aconteceu foi que, quando chegou, a cidade era muito mais sem lei e perigosa, mesmo fisicamente! Era complicado viver, havia muitos elementos de perigo, nos anos 70 e 80. Mas havia liberdades e podia encontrar-se um sítio barato para viver. É importante não esquecer que é uma ilha e funciona isoladamente. Eu comparo muito a Berlim, antes de o mundo cair – no sentido de estar muito isolada dentro dos EUA, com as suas ideias e estruturas. O que o Juliani fez foi limpar a cidade em vários sentidos. Poderia ter uma certa sujidade encantadora e isso perdeu-se. Também ficou uma cidade cara para viver, mas também mais segura. Hoje em dia é mais ou menos como outra cidade norte-americana, com lojas que nunca se viam, por exemplo, o K-Mart, que há em todo o lado. Perdeu algum sentido de individualidade, mas ganhou a segurança.

Ainda assim, sente falta desses dias, de quando era diferente?
Bem, nem por isso, porque experienciei e vivi esses dias. De forma geral, a ideia de mudança numa cidade costuma ser boa. Não lamento a perda desses aspectos. De certeza que no passado também aconteceram outras coisas que adorava ter visto, da mesma forma que fico feliz de ter vivido períodos como os do “Max’s Kansas City” ou o “CBGB” [night clubs de 1970, em Manhattan]. É apenas uma consequência da evolução das cidades.




Pedro Abrunhosa: Reinvenção com sabor a Caviar

 

Tem uma banda nova, os Comité Caviar. Ao fim de 20 anos custou muito deixar os Bandemónio?
Não, pelo contrário. Sabes que o facto de se começar um processo de novo, do zero, traz alguma emoção, alguma novidade. Pessoalmente gosto disso para todos os departamentos da vida: gosto de começar de fresco, do desafio de arrancar outra vez. É como se regressasse à origem primordial, que foi aquela que me fez fazer música desde os 16 anos. A emoção que sentia quando fazia música, aos 16 anos, numa garagem ou numa cave, ensaiava horas e horas para tocar coisas miseráveis, para ir tocar a um bar e receber cinco escudos. Havia uma emoção nisso, uma vontade, uma energia, que depois à medida que tu vais entrando na indústria, criando sucesso e os grupos vão criando apêndices, vão criando uma capa que os aparafusa a si próprios: managers, agentes, empresários, a indústria discográfica, as regras do airplay. São coisas que começam a moldar aquilo que havia na origem quando tinha o sonho de ser músico.

 

Teve então uma libertação, uma reinvenção.
Sim. Para já foi perfeitamente necessária e voluntária. Não houve zangas, não houve nada! É o fim de um ciclo e como fui eu que fiz foi mesmo bom. Difícil teria sido continuar com uma banda que estava um pouco manietada pela indústria. Os Bandemónio estavam a tornar-se numa instituição e as instituições tornam-se entidades pesadas. Os Comité Caviar são um grupo fresco, de músicos novos e muito activos. É isso que eu gosto.

E quando toca com eles, já sente a mesma facilidade de integração, a mesma cumplicidade que sentia com os Bandemónio?
Sim. Mas repara, os Bandemónio acompanharam-me durante 20 anos. Os Comité Caviar trazem-me outras coisas. Os Bandemónio podiam trazer a experiência. Os Comité Caviar trazem a experiência da novidade, muita amizade e também eles grandes músicos individualmente. Já pude escolher dedo a dedo, caso a caso, os melhores músicos do mercado. Por serem mais novos e trazerem também esse input da faixa etária, da postura em palco e energia. Diria que estou outra vez rodeado dos músicos que sempre quis ter. E creio que isso se nota, até porque o disco é todo gravado ao vivo.

Que tipo de reinvenção quis para este disco, o que estava à procura para este novo ciclo?
Tenho vindo a procurar o formato canção. Uma história que tenha um prólogo, um desenvolvimento e um epílogo. E no meio, os pontos-chave, que são os refrões. E esse é formato de canção que dura quatro minutos, em quem se conta uma história, se transmite uma ideia, uma emoção, é um formato que vem desde a Grécia antiga, dos trovadores do sul da Europa e é transmitida para a canção francesa, europeia e depois para o EUA, para Dylan e Cash. Eu não me estou a meter no meio desses, mas nós, os escritores de canções, somos todos herdeiros dessa tradição. O Sérgio Godinho, o Fausto, o Palma... eu estou a perseguir isso. E quis mudar o som. Eu passo muito tempo nos EUA, em trabalho e essa rotina, o convívio com o som americano, marcaram-me. Isso nota-se desde logo no “artwork”.

Pois, com a estrada em direcção ao horizonte.
Exacto, aquele imaginário daquele disco “road record”.

Da histórica “Route 66”.
A "Route 66" está uma desgraça! Era património norte-americano e está muito mal cuidado. Como o nosso, aliás. Mas há sítios emblemáticos, no Arizona, no Tennessee, em Memphis, nos estúdios House Of Blues, em Minneapolis, em Portland, em Nova Iorque. E há um som norte-americano que passa para os meus discos: com o funk, desde as colaborções com James Brown, Maceo Parker, Prince, etc. Agora há uma outra vertente, essa coisa do "storyteller".

E também se nota no rock gospel que toca, com o recurso a Hammond, às vozes femininas a fazer backing vocals, ou no som a fazer lembrar o Tom Petty.
Acho graça a essa expressão do rock gospel. Todos nós que fazemos rock vimos de uma raiz comum. A não ser os Kiss e os Scorpions (risos), que fazem o chamado rock branco, redneck rock, que não swinga; mas desde os U2, aos Rolling Stones até às bandas portuguesas, têm uma raiz comum, que é o gospel. Já não temos nada a ver com o espirtual, porque isso já foi há 150 anos, mas nas plantações de algodão cantava-se música com o beat que cantamos hoje. “Old Man River, Old Man River [canta e marca o ritmo a dois tempos com as mãos]; ou “Nobody Knows de Trouble I See” [canta marca o ritmo com quatro compassos]. O reggae vem daí, o funk vem daí, o hip hop vem daí. É beber a uma raiz comum. Eu bebi desde muito cedo porque desde novo tinha muito gospel em casa. A questão do Hammond, que apontas bem, eu comprei um Hammond B3, que é um clássico dos anos 50, da Motown, e este disco está muito contaminado por esse espírito. E o Tom Petty é uma referência, claro, como é o Springsteen, o Cohen, o Tom Waits. Mas o Tom Petty sim, é um músico extraordinário ainda por descobrir em Portugal.

Pode então dizer-se que este é o álbum mais rock que já fez. De onde vem essa necessidade do rock?
Ela sempre esteve lá. Se ouvirmos, por exemplo, o "Dá-me tudo o que tens para me dar" [imita o som do baixo]. Essa música é do "Viagens", gravada em 1993. É uma mistura muito cruzada, à Red Hot [Chili Peppers]. Nós os brancos, quando tocamos rock, junta-se tudo. Eu empurrei sempre mais para o lado mais festivo do funk, mas isso deixou tanto de me interessar. Fiz a formação com tradição clássica, depois passei para o jazz como contrabaixista. Tinha vinte e tal anos e ninguém me ligava nenhuma. E não era mau contrabaixista. Depois fundei uma escola, tive uma orquestra e comecei a cantar, Duke Ellington, por exemplo. E de contrabaixista passei para "crooner", a escrever temas em português e também a interpretar temas do James Brown. Sempre fui mudando de  estilos. Apesar de o Duke Ellington dizer que só há dois estilos de música: o bom e o mau. E eu sempre tentei fazer as coisas bem feitas. O rock era uma omnipresença na minha vida, por causa dos meus irmãos, que me metiam em casa os discos todos, desde os Ten Years After, aos Genesis, à tradição da música negra, Robert Grey, Otis Redding, Percy Sledge. Sempre ouvir muito isso.

Mas há coisas que não foge: as baladas que este disco também tem.
Sim, mas estas com um som um bocado diferente. Eu componho sentado ao piano. No caso deste disco, a "Pode o Céu Ser Tão Longe" é claramente um gospel. Não é uma balada é um gospel. É que nem todos os tempos lentos são baladas. A balada tem uma conotação diferente e estas músicas são demasiado enérgicas para serem baladas. O "Não Desistas de Mim" é uma balada, sim. Surgem quando me sento ao piano, porque faço todas ao piano, mesmo os rock são ao piano. Depois são transpostos. E também escrevo à guitarra, e surgem coisas diferentes, óbvio. E não posso salientar o papel do João Bessa, que é o co-produtor: não é possível a mudança de som sem a entrada em cena dele. Desde a captação, que se quis muito precisa, até à mistura, é muito trabalho dele.

 

 

 

 

E a selecção dos novos músicos, como foi?
Foi natural, porque são pessoas próximas. Comecei a substituir os Bandemónio gradualmente e com toda a amizade. Eu conheci o Miguel Barros lá no estúdio e a empatia foi imediata. A mesma coisa com o Pedro Martins, que começou a trabalhar comigo em Agosto ou Setembro de 2008, ainda nos Bandemónio, mas já com perspectiva do Comité Caviar. São pessoas com quem empatizo muito pela música e pela amizade. Acho que o grupo está muito homogéneo até no sentido humano. O Marco Nunes, que fundou os Blind Zero, o guitarrista, vem pela mesma via, é uma pessoa excelente e um grande guitarrista. E o cruzar esta gente nova, com novas formas de tocar, muda a minha maneira de escrever! O Paulo Praça é outro, que vem por necessidade de desdobrar as guitarras, mas todos eles têm uma característica em comum incrível: são de uma humanidade extraordinária, com uma generosidade tremenda para com a música, paixão da música. Isso é importante, porque nós passamos mais tempo juntos do que com a nossa família. Este disco demorou dois anos a ser feito: são dois anos de estúdio! Quando não se está no estúdio, está-se na estrada, no autocarro, nos aviões, hotéis. Faltam-me as duas Patrícias, que fazem os coros, e o Cláudio Souto que é o único elemento que transita dos Bandemónio. Está comigo desde o final dos anos 80: foi meu aluno, com 13 anos, e agora tem trinta e poucos! Já não é o mais novo do grupo e isso também tem piada!

E como vai ser tocar as antigas músicas ao vivo?
Vai ser diferente, porque vão ficar transformadas. Têm mais energia, mais power, isto apesar de os meus concertos nunca lhe faltarem energia. Sei que reinventar as músicas, ao fim de 17 anos, é a solução. Ou se reinventa, ou tem que se deixar de as fazer. Eu já ouvi imensas versões, por exemplo, de “One”, dos U2! Porque senão é insuportável para eles, que tocam todas as noites, há 20 anos. Perde-se a emoção da música. Eu quero é fazer no palco músicas novas, gosto de conquistar o público. É desafiante, por isso nem sempre dou aquilo que o público quer: tem que me agradar a mim também.

O Pedro conheceu há pouco tempo um momento de fama vertiginosa: a queda em directo nos "Ídolos". Esteve na lista dos vídeos mais vistos do YouTube!
E fiquei muito orgulhoso com isso!

Agora com um novo disco foi como vir à ribalta na melhor altura possível. Se bem que por um motivo infeliz...

Acho perfeitamente natural que uma figura, a fazer uma tonteria qualquer, a cair de um palco, desperta sempre curiosidade! É humano. Digamos que, ao contrário da ascenção e queda, viram a queda e agora ascenção! (risos)

 

Descarregue o novo tema dos Gogol Bordello

Os mestres do punk cigano, os Gogol Bordello, vão lançar um disco novo dia 27 de Abril. Mas a banda tem já disponível para download, no seu website, um single de antecipação. Chama-se "Pala Tute" e de certeza que Eugene Hütz e seus compadres vão mostrá-lo quando vierem actuar ao Optimus Alive!10, no dia 10 de Julho.

 

Para descarregar o tema, clique aqui.

 

Recorde a entrevista do músico ao METRO em 2008, quando estiveram em Portugal no mesmo festival a onde regressam este ano.