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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Goldfrapp: Longa vida aos sintetizadores!

 

Este "Head First" parece ser uma grande homenagem aos 80. Concorda?
É engraçado porque quando fizemos o disco “Supernature” toda a gente dizia: “Soa tanto a anos 80!”. Também disseram isso de “Black Cherry”.

Mas não acha que este ainda tem mais conteúdo que nos leva até essa década?
Acho que tem elementos disso, sim, sem dúvida. Especialmente as baterias e os sintetizadores. Mas Nós temos sempre muitas influências e inspirações para cada álbum.

E como apareceram as inspirações para este álbum?
Bem, queríamos fazer algo que fosse muito diferente do último álbum, “Seventh Tree”. Algo mais celebrativo, divertido, directo. E foi óptimo tirar os sintetizadores cá para fora e divertirmo-nos outra vez.

Como estava a dizer, há uma diferença de ambientes entre o último disco e este. Porquê mudar tanto?
Eu acredito que a música é uma expressão de um sentimento único e de ideias. E quando escrevemos música tentamos sons que expressem um ambiente e uma atmosfera. De certa forma, cada álbum é como se fosse um diário.

Como é que a Alison trabalha em estúdio com o Will?
É difícil explicar, porque não temos uma fórmula muito particular. Escrevemos tudo em conjunto. É um processo muito envolvente, com duas pessoas numa sala a partilhar ideias, a tocar, a falar. A tentar fazer coisas.

Mas a banda funciona melhor só a dois ou trabalham com mais gente?

É mais fácil ter duas pessoas do que quatro a escrever. Apesar de tudo, é muito divertido quando aparecem amigos para tocar connosco. E também é inspirador, pode ajudar-nos a desenvolver ideias.

Como é que divide o seu trabalho com o Will? O que faz melhor em estúdio?
Eu canto melhor do que toco sintetizadores! É onde me sinto mais confortável. Mas também me divirto muito a tocar. Mas o Will é o “master of the synthetizers”. Musicalmente fazemos tudo em conjunto.

As viagens também ajudam a descobrir novas coisas, ou só faz música em estúdio?
Eu ando sempre com algo que me permita gravar. E também com um caderninho. É muito importante, porque estamos sempre a  coleccionar ideias, à procura de inspirações. E nunca se sabe onde é que isso pode acontecer: pode ser no carro, pode ser no comboio... é um processo contínuo.

Já pensou na imagem que vai usar nos espectáculos de “Head First”?
Já falámos disso, mas estamos agora nos ensaios. A digressão só começa lá mais para o fim de Maio, por isso estou agora a pensar na produção, nos fatos. Está tudo ainda a formar-se! Vamos começar nos EUA, alguns espectáculos e depois muitos na Europa.

Vamos poder vê-los em Portugal em breve?
Sim, sim! Vamos a Portugal! Não me lembro da data, mas vamos para um festival este Verão. Não me lembro mesmo do nome... desculpa. [Entretanto soube-se ontem que a banda irá tocar no Festival Marés Vivas, em Vila Nova de Gaia, dia 15 de Julho]

Acha que têm sido uma inspiração para muitos grupos e cantoras nos últimos anos, mas que nunca receberam o crédito devido?
Hum... há dois aspectos. Acho que tem sido reconhecido por certas pessoas e pela imprensa que influenciamos muitos dos novos e novas artistas. Mas é interessante que, quando fizemos o “Black Cherry” e o “Supernature” não acho que muita gente percebia o que estávamos a fazer. Não sabiam se era dance music ou outra coisa qualquer. Hoje em dia já é um lugar comum.

E acha que foram os Goldfrapp que ajudaram a tornar a definição mais clara?
Bem, o que estou a tentar dizer é que quando começámos ainda não normal ou popular como é nos dias. Mas há sempre pessoas que começam tendências e tornam-se moda. Mas o mundo é assim, não? Mas estamos muito contentes com o nosso sucesso e com a nossa carreira e estou muito feliz que estejamos aqui a fazer o que gostamos.


Tiago Bettencourt: A pedalar para se pôr em fuga

 

Esta é a conversa que o METRO teve com Tiago Bettencourt e que deu origem à entrevista que saiu hoje no Metro a propósito da edição do novo disco "Em Fuga".

 

O Tiago saiu de um “Jardim” [o último disco] e põs-se “Em Fuga”.
Por acaso não tinha associado os dois... o nome do disco só surgiu depois de gravarmos. No final perguntaram-me como se ia chamar e eu não sabia. Mas a certa altura veio-me esta ideia à cabeça. Vem a imagem do ciclista que sai do pelotão e também associei muito às letras e ao facto de falarem muito em fugir, mudança e largar coisas. É também uma fuga ao pelotão porque há muito tempo que não me sinto em nenhuma tendência de cá da terra, sinto-me um pouco sozinho no lugar onde estou e também pelo que o álbum sugere: largar coisas que nos fazem mal e agarrar o que nos faz bem.

Mas está a tentar soltar-se de alguma coisa?
Bom, eu gostei da imagem. Não quer dizer que esteja a fugir... acho que a certa altura basta olhar o panorama musical e dá para desvendar as tendências: quem está com quem e a fazer o quê, o que o público pede, a ir de acordo com modas. É a coisa que eu mais detesto, é ouvir um artista e perceber de imediato em que nicho é que ele se está a tentar inserir. O que eu faço no meu trabalho é fugir disto tudo. O princípio dos ensaios foi muito difícil... tocava guitarra e pouca coisa me comovia. Sabia que as músicas podiam ser muito boas, mas tínhamos de perceber como, já que eu não me estava a contentar com o som normal de bateria, de guitarra eléctrica. Tive que exigir muito dos músicos com quem estou a tocar, em termos de criatividade, de querer sair do instrumento e arranjar novas formas de tocar, novas baterias, novos tiques de guitarra. Coisas com nervos diferentes, para me comoverem.

É nesses pequenos detalhes dos músicos que estão as mudanças, as fugas?
É o princípio, é começar a perceber e a desprendermo-nos daquilo que já sabemos. Por exemplo, o João [Lencastre] é muito bom baterista, mas o que quero é que descubra coisas novas no instrumento, que se veja à rasca para tocar, um toque qualquer que nunca foi buscar. É incentivar a ir para lá do que já sabem. Não quero músicos que só estejam a fazer o trabalho simples, quero que se divirtam.

E o Tiago, como se desprendeu dos vícios de sempre da escrita?
Eu tenho noção dos vícios, mas há alguns que não me importo de ter. Mas há lugares pelos quais já passei e não quero voltar, outros que acho giro passar por lá. Como um pintor que tem símbolos que se encontram aqui e ali nos seus quadros, aludindo a trabalhos anteriores. Mas não gosto de parecer igual e acho que estou muito mais exigente comigo próprio. Estou a escrever muito menos letras que dão música, porque não fico contente com qualquer coisa. Isso faz-me ser menos complexo o que torna estas letras muito mais minimais, mais abertas e vão mais directo ao assunto. É uma fase que estou a passar!

O título deu-me muito a ideia de repentismo, de impetuosidade. Isso traduz-se no próprio disco?
Acho que as minhas músicas são sempre uma reacção àquilo que se passa à minha volta. Tem a ver com a reacção que eu tenho à reacção das pessoas. Falo muito sobre relações, mas também falo muito sobre o estado de consciência das pessoas e o que me inquieta. Mas o que me faz escrever músicas tanto pode ser a fúria como a serenidade. “O Caminho de Voltar” vem exactamente daí: fui fazer um retiro, porque estava meio a atrofiar aqui em Lisboa, e fui para Marvão. Andei no parque natural à volta, arranjei um penedo com umas vaquinhas à volta... e a música começa com “há sempre um sítio para fugir”. Essa música vem muito da serenidade, de um escape.

Mas se calhar também se deu o repentismo de ter a necessidade de sair e isolar-se.
Exacto. Acho que as melhores músicas são as que nascem de uma necessidade de escrever qualquer coisa. Por isso é que quando não tenho de fazer música, não faço. A última música que fiz acho que foi a “Se cuidas de Mim”, que foi gravada em Junho. Não tenho medo de estar a passar por um período de branco, porque sei que o resto do tempo são momentos  de absorção e que há-de escoar de qualquer forma.

Voltou ao Canadá para gravar este disco.
Sim, cá em Lisboa, com banda, e depois em Montreal para fazer umas vozes, misturas e masterizações.

E com o mesmo produtor, o Howard Bilerman. Porquê?
Acho que descobri a pessoa que tinha a maneira de trabalhar que andava à procura desde sempre. Mas quando comecei a fazer música, não sabia o que queria, o que gostava. O Howard é um gajo muito “old school”, trabalha muito com o erro, com a parte intuitiva da música. Andamos à procura não da perfeição técnica, mas antes de emoção perfeita. Ele é muito bom a tirar o que temos de melhor e a captar muito bem, claro está. Isto já na parte técnica. Já é um amigo, o estranho era se não gravasse com ele, tanto para mim como para ele. Acho que ele ia ficara muito triste se não tivesse feito este disco com ele (risos).

 

Faz uma música com a actriz Inês Castel-Branco. Como teve a ideia?

Ela é minha amiga e ouvi-a a cantar uma vez na TVI, num dueto com a Jacinta. Ela tem uma voz muito infantil, verdadeira. E é isso que me comove numa voz: não tanto a capacidade técnica, mas antes a verdade e o sentimento. Isso passa na voz dela. Precisei de uma voz diferente, para uns coros, para um projecto que tinha, que era o "Tiago na Toca" e achei que ela era a ideal. Acabei por falar com ela e convidar também para fazer duas músicas para este disco: a "Tens que largar a mão" e a "Se cuidas de mim", que gravámos cá, na casa de banho, assim meio crua, com dois microfones, que foi a que ficou. O Howard gostou muito e acabou por ser o take que ficou!

   

Abençoado sejas, Belzebu

Os Diabo na Cruz, mais um  grupo da FlorCaveira (que conta com Jorge Cruz, B Fachada, Bernardo Barata, João Pinheiro e João Gil ), tem feito um enorme sucesso, pela união da música tradicional portuguesa com o rock. O Metro foi maroto e levantou um bocadinho as sete saias “às meninas” deste quinteto para tentar desvendar as origens do grupo e como surge um dos melhores discos portugueses de 2009, “Virou!”. Jorge Cruz explica. O grupo toca amanhã no São Jorge, em Lisboa, e sexta-feira no Passos Manuel, no Porto.

 

Como nasceu este grupo?

Isto é um grupo que surge no ambiente musical de Lisboa. São todas pessoas de bandas de Lisboa que se cruzavam e juntámo-nos um bocado para perseguir uma ideia que eu já tinha, de mexer com a música popular portuguesa, num ambiente de rock, até porque somos todos músicos de rock. Começámos a trabalhar há ano e meio, só com três, mas acabámos por fazer a junção na voz do B Fachada, a viola braguesa que ele toca, mais as teclas. Começou comigo, com o João Pinheiro e Bernardo Barata.

 

O Jorge já tinha tido uma banda antiga, os Superego, que também tinham um pouco este conceito.

Não inicialmente, mas quando a banda terminou já era um bocado essa a ideia. Na altura não estava um ambiente muito convidativo para o que estávamos a fazer, encontrámos muitos obstáculos. Também era a altura de vida em que se está a mudar de ser rapaz para ser homem e tem que se fazer mais à vida. É uma altura difícil para uma banda continuar, se não houver um objectivo muito exequível.

 

De onde vem o interesse pela junção entre o rock e o folclore? Já foi definido como Folc'roque.

Não me atrai muito a palavra folclore, precisamente pela ideia quase turística. Eu cresci a ouvir música popular. Nasci em 1975 e os meus primeiros dez anos foi a ouvir essas músicas, que se ouvia lá em casa, e a ir a concertos do Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Trovante. Formei-me um pouco mais influenciado pela música anglo-saxónica e a querer fazer rock. Mas às tantas decidi juntar as duas coisas, que era o que fazia sentido para mim.

 

Que dificuldades são essas que enfrentou nos Superego? O que acha que mudou para ser este o momento para mostrar estas ideias?

Sinto que as pessoas estão preparadas para receber as ideias. Acho que mudou muita coisa, a aceitar-nos mais. Viemos de um trauma desde a ditadura, um trauma existencial a que o José Gil chamou “medo de existir” e que, gradualmente fomo-nos libertando, porque temos que lidar com quem somos.

 

A ligação à editora FlorCaveira  - que tem lançado tantos músicos – ajudou à amostragem do Diabo Na Cruz?

Ajuda porque vir da FlorCaveira faz com que as pessoas queiram ir ouvir mais depressa. A editora conseguiu criar essa credibilidade e atenção. Mas nós, que estamos juntos, associados à FlorCaveira, à AmorFúria ou à Catadupa, a malta que se tem juntado, tem é coisas em comum. Não é a editora que começou a encontrar músicos e pô-los para o mundo, tipo Motown. Já existíamos e fazíamos músicos antes de aparecer a FlorCaveira.

 

Mas acaba por ser um bocado a lógica da cooperativa, que todos juntos são mais fortes.

Acho que sim. Aliás, os líderes disto tudo, o Tiago Guillul e outros, não gostariam, mas acho que tem muito de cooperativa, mesmo no lado esquerdista que não lhes agrada muito! (risos)

 

Ficaram surpreendidos com a reacção ao disco, já que foi considerado um dos melhores discos portugueses de 2009?

Até certo ponto sim, mas não fizemos a banda para esse reconhecimento. Mas também tínhamos consciência que estávamos a fazer uma coisa interessante e a tentar fazer um certo caminho musical, em busca de um som, de uma união de linguagens. Não chegámos a nenhum fim. Percebemos o interesse que tinha para nós, portanto pensámos que também teria para outras pessoas. Está a superar as expectativas.

 

O facto de os membros terem as suas carreiras a solo pode ser algum impedimento para a continuidade dos Diabo na Cruz?

Não é altura nem temos falado sobre isso. Mas percebo que a determinada altura tenhamos de conversar. Antes de mais sentimos o privilégio de ter chegado aqui, de termos um objecto final em conjunto. Podemos tocar ao vivo e divertir-nos, que é isso que acontece. Há que usufruir e vamos ver onde nos leva, porque isto não é uma coisa cerebral, não foi uma coisa feito a partir de castings. Enquanto nos divertirmos, vamos continuar.

 

Porquê a escolha do Vitorino para tocar na primeira música no disco?

Já no meu disco anterior tinha feito uma versão da “Lua Extravagante”, um tradicional alentejano, e penso que isso ter-lhe-á chamado a atenção. Foi uma honra enorme, porque é uma pessoa por quem tenho uma enorme admiração e foi um convite natural, que já tinha sido conversado em bastidores. Acabou por ser neste momento e veio mesmo a calhar, foi como dar-nos autorização de mexermos sem pudor nas nossas linguagens.

 

Está prevista a participação do Vitorino nos vossos concertos?

Não o tenho chateado com isso, mas espero que venha a acontecer. Acho que neste momento é importante de nos apresentarmos como somos. Se houver essa oportunidade, não faz sentido que seja só um tema, mas antes uma coisa especial, que o honre e homenageie.

 

 

Vão tocar amanhã no Cinema São Jorge e sexta-feira no Passos Manuel, no Porto. Como tem corrido a digressão?

Tem sido muito bom, temos estado muito entusiasmados e temos tido muito prazer em tocar a nossa música. As pessoas reagem bem porque a música talvez lhes diga qualquer coisa: talvez remeta para os nossos antepassados, mas também está situada no século XXI. É divertimento, apesar de termos momentos mais profundos no concerto. Muito nos espera agora. O concerto do São Jorge é uma sala especial e a nossa ideia nunca será confinar isto a Lisboa e Porto, porque a nossa música inspira-se no trabalho rural, naquilo que é a música de ceifa, a música da tradição oral. Queremos tocar em Portugal inteiro.

 

Disse que não gosta muito da ligação ao conceito do folclore, mas escolheram para a capa do disco, uma imagem apelativa, uma dançarina de um rancho. De quem é a autoria da capa?

É do Paulo Ribeiro, da FlorCaveira, e tivemos de ter autorização para ter uma imagem tão ousada na capa de um disco de uma editora cristã. Teve de ser alguém da própria editora. É uma ideia simples, mas estamos a mexer com alguns ícones daquilo que é português. Mas somos uma banda de rock, mas pareceu-nos uma boa ideia ter uma imagem despretensiosa e descomplexada da mulher portuguesa, com as belíssimas vestes minhotas, mas com a sensualidade que as mulheres portuguesas sempre tiveram, mas que antigamente havia pudor em demonstrar. 



O jazz segundo José

 

Aqui fica a conversa que o METRO teve com José James - o músico nova-iorquino que começa hoje a digressão em Portugal (ver em baixo) - e que serviu de base para o texto publicado na edição desta sexta-feira.

 

Esta vai ser a sua terceira vez aqui em Portugal, estou certo?

Talvez seja a quarta. Eu cheguei a ir tocar uma vez num concerto com o Nicola Conte. Por isso já deve ser a quarta.

 

E as recordações são boas?

Sim, sem dúvida. A última vez  que aí estive foi no Festival Super Bock Em Stock e o público é muito quente, sempre a aplaudir. A Jordana [de Lovely], a nossa vocalista convidada, está-me sempre a dizer que adora Portugal. É incrível.

 

E o público português é um bom público para a sua música?

Sim, sem dúvida. É uma boa combinação de pessoas que querem ouvir música, apreciar, mas que também respondem muito bem, e dançam, expressam-se. Eu gosto muito disso.

 

Sente isso no palco?

Claro, esse calor que vem do público sente-se.

 

Vai fazer agora cinco concertos aqui em Portugal: Estarreja, Portalegre, Coimbra, Lisboa e Caldas da Rainha. São muitas datas!

Sim, estamos a ter muito apoio dos promotores para tocar o novo álbum ao vivo. Acabámos agora de tocar, no fim-de-semana, no Japão, e devemos passar o ano na estrada. Mas estou muito contente de poder ver o Portugal fora de Lisboa.

 

A última vez que esteve cá mostrou o primeiro álbum, “The Dreamer”. Agora é a vez de “Blackmagic”. Como foi fazer este segundo disco depois de um álbum tão elogiado?

Por ter sido tão elogiado, como dizes, acho que me deu muita confiança para arriscar para fazer este segundo disco, para arriscar. Passei muito tempo com DJ, com o Giles Peterson, a ir a vários festivais por todo o mundo. E comecei a conhecer pessoas como o Flying Lotus, Denga, Taylor McFerrin, que me influenciaram na tentativa de chegar a um público mais vasto. Apercebi-me que era a direcção que gostaria de dar a este disco, um pouco mais experimental. Não era que quisesse sair do jazz, ou fazer um disco menos sério, mas queria algo mais acessível, que permitisse às pessoas dançarem.

 

Precisamente, é das coisas que se nota no disco, é mais dançante do que o primeiro. Já tinha pensado nisso quando começou a fazer o disco?

Sim, porque sabia que queria trabalhar com pessoas como Moodyman, ou o Lotus. Frequentei muitos “clubs” em Londres e é giro ver as pessoas a dançar este tipo de música. Então percebi que queria tentar isto. Acho que no jazz pensa-se muitas vezes de forma séria, mas é preciso correr o risco. Não tem de ser necessariamente assim e não é dessa forma que a malta nova ouve música.

 

Sentiu muita pressão para fazer este disco, depois de ter sido eleito um dos maiores talentos do jazz dos últimos anos?

Sim, senti alguma. Mas acho que teria sentido mais se tivesse feito outro disco de “pure jazz”. Sabia que o “The Dreamer” era o melhor disco de jazz que eu conseguiria fazer naquele tempo, por isso precisava de um lado mais “soulful”, explorar isso. Há muita gente que adora o “The Dreamer”, mas agora podem ouvir outro lado.

 

Como é que faz uma música tão relaxante? Qual é o seu processo?

Basicamente vejo a música como construir uma casa. A estrutura vem primeiro: seja eu ao piano ou a ouvir um instrumental de um produtor. Depois quando estou contente com o “mood”, o ritmo, passo ao que chamo a decoração: pintar parede, decorar com um sofá, etc. Eu olho para a música como se estivesse a preparar um quarto para alguém nos ir visitar: umas vezes queremos que esteja confortável, outras vezes, preferimos baixar as luzes e ter um ambiente mais romântico. Nas letras gosto de contar histórias... E sinceramente sinto que há muito amor na minha vida: sou casado e estou muito apaixonado. Mas sempre gostei de deixar as pessoas bem dispostas com a música e palavras, mas desafiá-las, ao mesmo tempo.

 

Como surgiu este nome, “Blackmagic”?

Foi a primeira música que fizemos para o disco. Depois o nome remete para algo que mistura um tom negro, mas que, ao mesmo tempo, é celebrativo.

 

O que é que os fãs que o forem ver num destes cinco concertos podem esperar?

Uma mistura de vários estilos. Gostamos disso, de tocar com profundidade, de ter o máximo de honestidade possível. E estou muito contente de ter a minha amiga Jordana a cantar comigo, porque transporta as coisas para outro nível.

 

Vai ter tempo para passear por Portugal?

Sim, sem dúvida, ver as paisagens, ir para o mar e conhecer as pessoas.

 


A agenda de José James:

Hoje: Cine-teatro de Estarreja, 22 horas (10 euros)

Amanhã: Festival de Jazz de Portalegre, 21h30 (entre 8 e 28 euros)

22 de Fevereiro: Teatro Académico Gil Vicente - Coimbra, 21h30 (entre 12 e 15 euros)

24 de Fevereiro: Museu do Oriente, Lisboa, 21h30 (15 euros)

25 de Fevereiro: CCC - Caldas da Rainha, 21h30 (15 euros)

 

Mão Morta: 25 anos com a veia a pulsar

 

Adolfo Luxúria Canibal, vocalista da banda de Braga, conta ao METRO como estão a comemorar os 25 anos de carreira: Além de um disco novo, a sair em Abril, lançaram uma caixa em que reeditam os primeiros quatro discos.

 

Está a ser um ano muito cheio para os Mão Morta?
Já vem do ano passado, mas sim tem sido muito trabalhoso, sobretudo porque não nos dedicamos cem por cento à música, utilizamo-la como uma actividade de prazer e ganhamos o nosso dia a dia com outras profissões. Quando há muita coisa para fazer e os prazos apertam torna-se um pouco sufocante. Este ano o principal sufoco tem sido a feitura do novo disco. A caixa de reedição é mais um trabalho da editora Cobra e não dos artistas. Era para sair em Setembro e acabou por sair só em Dezembro. Por isso não é tão sufocante.

E os prazos para o novo disco estão a apertar?
Estamos a recuperar bem. Tivemos  um problema grave, que foi uma doença estranha e grave do Miguel Pedro que nos fez perder dois meses. Foram dois meses em sufoco a tentar recuperar a perda de tempo e já estamos nos timings. Agora, até o disco estar pronto, em Abril, o sufoco não pára.

Esse sufoco é bom para um músico?
É bom. Eu conhecendo os Mão Morta há 25 anos [sorri]... e sei que funcionamos melhor quando temos prazos. Quando não temos somos levados a relaxar. “Se não for agora é daqui a um mês. E se não for daqui a um mês é daqui a um ano.” Por exemplo,  o espectáculo do Maldoror era algo que o Miguel Pedro falava há alguns dez anos e só quando nos comprometemos a fazer com o Theatro Circo é que realmente o fizemos.

Acha que isso influência o trabalho final? Ou seja, se está mais relaxado faz música de outra forma, ou simplesmente não faz música?
É mais a segunda hipótese! Se olhar para a história dos Mão Morta, o grosso do trabalho foi feito por solicitações externas, ou seja, nós limitamo-nos a dizer que sim: a partir daí sentimo-nos compelidos e obrigados a cumprir o que dissemos e por isso fazemos as coisas. Se não houvesse essas solicitações provavelmente poderíamos não ter feito tantas coisas.

O novo disco vai chamar-se “Pesadelo Em Peluche”. O que pode adiantar sobre o que estão a criar?
Preferia não avançar grande coisa até porque não está terminado. Posso dizer apenas que partiu do universo do J.G.Ballard , o escritor mais conhecido pela ficção científica,  com canções mais curtas, mais rock and roll, mas não posso adiantar mais.
 

 

Panda Bear: Um americano alfacinha

 

Noah, podemos fazer a entrevista em português?
Em português vai ser difícil! Acho que não consigo. Só consigo dizer as coisas mais básicas: pedir em restaurantes e tretas simples dessas.

Mas está a pensar em aprender português?

Sim, até tenho vergonha de estar cá há seis anos e ainda não conseguir falar português. Mas foi uma das minhas resoluções de ano novo, finalmente aprender. Dois dos meus sonhos, quando vim para cá, foi aprender a conduzir um carro com mudanças manuais; e o outro era aprender a língua. Já aprendi a guiar. A última barreira é a língua.

Se calhar, aqui em Lisboa, é mais difícil aprender a conduzir, não?
Sim, especialmente no sítio onde eu vivia, no Bairro Alto, onde as colinas são íngremes e as ruas estreitas. Mas safei-me.

Está a gravar um novo disco. Lisboa tem-no inspirado?
Sim, claro. Sinto que o ambiente influencia-nos de várias formas, mas é difícil dizer como. Apesar de haver muito sol por aqui, não acho que este disco seja tão solarengo. Mas tenho certeza que a cidade e o ambiente arranjam forma de se misturar na música.

E também se inspira pela música portuguesa?

Eu não sou versado em música portuguesa, mas acho o fado inspirador, por ser tão dramático, emocional e romântico, a meu ver. Acho que foi uma inspiração para as minhas novas canções, sem dúvida.

É por isso que diz que não é um álbum tão “solarengo”?
Sim, é um bocadinho mais sério, como o fado. Tenho a certeza que se ouvires as canções não vais encontrar nada de fado nos temas. Mas acho que, de alguma forma, ele está lá.

O álbum vai chamar-se "Tomboy". Porquê?
Pensei em muitas coisas e acho que todas as canções se centram no tema de ser duas coisas ao mesmo tempo, ou ser algo que não somos, ou possuirmos emoções que entram em conflito connosco. A definição de Tom Boy é uma rapariga que exibe qualidades de rapaz: é dura, gosta de desportos, esse tipo de coisas. Acho que lhe chamam “menina-rapaz”.

Sim, mas dizemos maria-rapaz. “Mary-boy!”
Ah, sim sim! Desculpa! "Mary-boy"! (risos)

Nestes dois concertos do Lux, do fim-de-semana, já vai mostrar novas canções?
Sim, acho que nove de dez canções já vão ser do “Tomboy”.

Vai ser a apresentação do disco aqui em Lisboa.
Mais ou menos. Acho que as músicas ainda vão mudar à medida que eu as vá gravando, mas sim, será a apresentação do disco, de certa forma.

Está a gravar cá o disco?
Sim, devo começar mesmo a gravar na próxima semana. Mas é no meu estúdio, sozinho. Não é nada de especial!

O sítio em que vai tocar, o Lux, é um sítio que gosta de ir com frequência? O que é que gosta de fazer por aqui?
Gosto muito, mas só lá fui umas quatro ou cinco vezes. Mas não saio muito, sabes? Gosto de sítios tranquilos. Os parques ao pé de minha casa. E toda a Baixa de Lisboa, também gosto muito.

E consegue ter sossego, no Bairro Alto?
Mudámo-nos, há uns três ou quatro meses. Agora estou numa zona mais tranquila. Mas ainda trabalho lá no Bairro Alto.

Demorou muito tempo a habituar-se à cidade?
Nem por isso, mas acho que é porque sempre andei a saltitar de um lado para o outro. Nunca fiquei mais do que quatro ou cinco anos num só sítio, desde os meus 14 anos, quando saí de Baltimore. Aprender a sentir-me confortável num sítio é algo que faço rapidamente. Diria que, ao fim de dois anos, quando comecei a aterrar em Portugal, já me sentia em casa.

Mas não foi difícil sair de Nova Iorque, uma cidade com oito milhões de pessoas, passar para uma cidade com menos de um milhão?
Bem, já estava em Nova Iorque há cinco anos e estava pronto para sair de lá. Vir para uma grande cidade que, em muitos aspectos, era o oposto, era precisamente o que eu estava à procura. Não foi difícil. Até posso dizer que não há muitas coisas que eu sinta falta de Nova Iorque.

Além do amor e da família, o que é que o convenceu a ficar por cá?
Acho que a velocidade da vida aqui. Faz-me muito sentido, é muito mais lenta que num sítio como Nova Iorque. Sinto-me em paz por aqui.

E é fácil para si trabalhar com os Animal Collective a partir de Lisboa?
Requer muita comunicação via e-mail. Mas estamos sempre em contacto, a dizer o que queremos e o que estamos a fazer. Há muitos emails a serem trocados.

Mesmo com essa distância toda, conseguiram fazer um dos melhores discos de 2009.
Mesmo estando separados, o verdadeiro trabalho faz-se quando estamos juntos, quando voamos até aos EUA e passamos uma série de tempo em conjunto a trabalhar nas canções.

Como é que foi para si saber que o "Merriweather Post Pavilion" foi um dos discos do ano?
Foi óptimo, claro. Mas é perigoso receber tantas reacções a um trabalho, sejam positivas ou negativas. Qualquer coisa que comece a afectar aquilo que sentes pelo que fazes pode ser perigoso. É bom saber que as pessoas gostam, mas além disso não quero saber de mais nada.

Já começaram a pensar noutro disco?
Não, estamos a ir devagar. Estamos a fazer as nossas coisas. Fizemos o filme, que apresentámos em Sundance, e há outros projectos que acho que ainda vamos mostrar antes de um outro disco “a sério” dos Animal Collective.
 

 

 

"O público é o patrão que resolve a minha vida"

 

Ana Carolina reúne ídolos no DVD "9 + Um" que celebra os seus dez anos de carreira. John Legend e Esperanza Spalding também lá estão

 

 

Era um desejo juntar tanto talento num DVD comemorativo ou foi uma ideia que surgiu por acaso?

Completando dez anos de carreira, pensei que queria fazer tudo o que tivesse vontade. Falei para o meu empresário que queria fazer um DVD com várias participações. Disse-lhe que queria cantar com a Maria Bethânia, Gilberto Gil, John Legend, Esperanza Spalding. E correu super bem porque as pessoas aceitaram participar e os encontros foram muito legais. Houve histórias curiosas. O John Legend era um cara que eu não conhecia, nunca tinha feito nada com ele. Aí, rolou um e-mail que dizia que eu era uma cantora brasileira e que adoraria que ele participasse no meu DVD. Mandei uma música e ele não só cantou como fez a letra. Fui para Atlanta e gravei um clip com ele. Maria Bethânia foi a primeira pessoa que me pediu uma música e era muito natural que eu a chamasse para cantar uma canção minha que ela gravou [“Eu que não sei quase nada do mar”]. O Gilberto Gil fez uma parceria chamada “Torpedo” para o disco “Nove” e logicamente chamei-o para cantar. Assim foi com o Luiz Melodia, um cantor que tem muito swing. Chamei a Roberta Sá para fazer “Milhares de sambas”, a Maria Gadu para uma música inédita chamada “Mais que a mim”, a Zizi Possi para cantar “Ruas de Outono”, Ângela Ro Ro para fazer “Homens e mulheres”, Seu Jorge para cantar “Tá rindo, é?” e Antônio Villeroy para cantar um inédito dele, “Heroína e vilã”.

 
Como é que se sentiu no meio de cantores de gerações tão diferentes?
Luiz Melodia eu escutava com 15, 16 anos... Ser fã e colega é uma honra incrível. Fiquei muito emocionada com estas participações que me deram aval para mais dez anos de carreira.
 
Quando olha para trás e recorda os tempos de menina em que cantava no cabeleireiro da sua mãe, o que é que pensa que mudou em si?
Aprendi bastante neste tempo, porque perdi um pouquinho a inocência. Percebi que trabalhar na música não é só ter uma boa percepção musical, compor e cantar. Não. É preciso entender o “business” da coisa e aprendi que o sucesso é uma gangorra: de vez em quando ela passa por você, de vez em quando ela sai de você, de vez em quando ela volta para você. É preciso estar sempre atento às oportunidades do sucesso. O público é o meu maior patrão, resolve o que vai ser feito da minha vida. Na verdade, eles não sabem disso, mas o público é o responsável por tudo. Se o sucesso acontece é porque tem um público ali na frente que quer ver você.
 
E o que é que se manteve da Ana Carolina menina?
A força trabalhadora para o artesanato. Temos de ter bastante esperança, não podemos desistir. [Winston] Churchill tem uma frase maravilhosa que diz assim: “De fracasso em fracasso você chega ao sucesso”. Isto significa que não nos devemos importar com todas as coisas que se atravessam no caminho e que nem sempre são fáceis, nem boas.
 
Em algum momento sentiu o fracasso?
Eu acho que... houve um disco que não correu muito bem, o disco de estúdio “Dois Quartos”. De todos os meus álbuns e de toda a minha história, foi o mais complicado, não foi uma coisa que toda a gente amou. Mas a situação reverteu-se com o “Dois Quartos ao Vivo”, que toda a gente gostou. Devia ter feito logo ao vivo (risos).
 
No início da carreira, teve consciência do seu rápido sucesso?
Eu tomei um susto muito grande. Garota, vinda de fora, de Minas Gerais, fiz um programa de televisão e entendi que as pessoas me iam conhecer. Mas a primeira vez que alguém falou “Vi-te num programa, dá-me um autógrafo”, eu apanhei um susto. Parece bobagem estar a falar disto assim, porque já estou acostumada. Mas com 24 anos não tinha noção e comecei a fazer terapia. Hoje completo dez anos de carreira e dez anos de terapia (risos).
 
Sentia-se incomodada com a fama?
Um pouquinho. Quando saía para comer alguma coisa, entre uma garfada e outra tinha de tirar umas fotos... Achava bom, mas em alguns momentos perdia a privacidade.
 
E como é que aprendeu a lidar com as polémicas, sobretudo quando assumiu a sua bissexualidade?
É engraçado que quando saiu essa revista com essa entrevista, um conhecido chegou ao pé de mim e falou assim: “Você gosta de homem também?”. Foi bom porque ficou logo claro para todo o mundo. As pessoas têm o hábito de se focarem só na arte, de não falarem da vida pessoal. Mas eu não tenho o menor problema com isso, não sofro com o facto de obter uma resposta positiva ou negativa. Para dizer a verdade, depois de ter dito isso, os shows continuaram lotados e os discos continuaram a vender-se. No fundo, no fundo, eu consegui provar uma coisa: as pessoas estão é interessadas na música. Há pessoas que se escondem por medo de serem atingidas de alguma maneira, mas eu demonstrei que não. É importante que uma personalidade diga o que pensa, principalmente sobre os tabus da sexualidade, que ainda existem aqui no Brasil claramente. Acho que dou força para que algumas pessoas possam viver de uma maneira mais livre e aberta em relação à sua sexualidade.
 
Se pudesse pô-los numa balança, quais dos dois lados pesaria mais: o de intérprete ou o de compositora?
Eu componho muito, mas a minha maior felicidade é quando outra pessoa canta, porque aquilo passa da cantautora. É muito provável que eu faça uma canção e a cante, mas quando a dou a alguém consigo acertar um alvo diferente e fico muito realizada. Como cantora eu gosto muito de fazer shows, mais do que ficar no estúdio. O palco é o lugar onde me sinto mais à vontade. É uma coisa de verdade, quando começa o show, os erros têm de ser perdoados, os apertos aplaudidos... é um risco e eu gosto de correr esse risco. Mas o que eu gosto mais de fazer é mesmo compor.
 
Deseja acabar a vida a compor?
A compor, sempre.
 
Além da música, até onde vai a sua ambição?
Quero lançar outros artistas pelo meu selo [editora].
 
E para quando um regresso a Portugal?
No máximo até Junho, com muito prazer!

 

Ana Carolina e Maria Gadu interpretam o inédito "Mais que a mim"

Entrevista com Stuart Staples (Tindersticks)

Ao telefone de Limousin, a sua nova casa depois de se ter mudado de Londres para França, Stuart Staples conta ao METRO como é que os Tindersticks renasceram após uma paragem de cinco anos. “Acho que houve a possibilidade de corrigir as coisas e pô-las bem. A estética da banda agora é tão forte que permite uma liberdade muito maior.” Os Tindersticks começam hoje, nas Caldas da Rainha, uma digressão pelo país – que passa fora das grandes cidades, Lisboa e Porto - para mostrar o novo álbum, "Falling Down a Mountain".

 

Acha que este álbum é o mais alegre, mais positivo dos Tindersticks?

Na sua essência, não tenho certeza... Mas tem um espírito de aventura. E isso transmite alguma alegria que acredito que envolve este disco.

 

Desde o último álbum, “The Hungry Saw”, que mudou de residência: passaram de Londres para Limousin, em França. Isso mudou de alguma forma a sua perspectiva de vida?

Acho que essa saída de Londres fez mais parte da mudança, do que antes a mudança por si só. Foi uma espécie de manifestação física de um desejo de mudança, para ter um novo sítio para olhar, diferentes coisas para ver e também ter uma nova forma de trabalhar. Não foi a saída de Londres que me mudou, mas antes a minha mudança que pediu essa mudança para França.

 

Mas que novo estado dos Tindersticks é esse de que fala?

Depois de nos termos reunido – estivemos parados cinco anos – decidimos juntar-nos durante uns dias, para ver o que acontecia. Depois disso, voltámos a encontrar-nos. E outra vez, e outra vez... E fizemos o “The Hungry Saw” (Que agora, olhando para trás, tem um ar de muito experimental). Desde então o sentimento entre nós tem vindo a crescer, parece que há um sentimento fresco, de estar juntos e fazer música. Estamos livres do passado e a pensar no nosso presente e futuro.

 

É curioso que depois do hiato, fizeram dois álbuns em cerca de um ano e meio...

Demos cerca de 80 concertos com o “The Hungry Saw” e esta foi a primeira vez que, após uma digressão desta dimensão, tivemos o desejo imediato de fazer algo novo. No passado era mais: “ok pessoal, vemo-nos daqui a uns meses”. Precisávamos de estar afastados. Mas desta vez havia algo a crescer e pedir para estarmos juntos... 

 

 

 

 

Entrevista a Francisca Pereira dos Santos

Francisca Pereira dos Santos está na Austrália a preparar a temporada que começa em Março. A jovem portuguesa de 20 anos, que em 2009 conquistou o título de campeã Pro Júnior, foi a quarta melhor da Europa e vigésima classificada do circuito mundial WQS, quer agora entrar na elite mundial (WCT). Para melhorar as suas hipóteses, Francisca está a treinar no The Surfing Australia HPC,  um centro de alto rendimento de surf.

 

Quais são os seus objectivos para este ano?
Entrar no WCT, que reúne as melhores surfista do mundo. Ou seja, tenho de ficar no top 10 do WQS, para entrar no WCT.

 

Em que medida esta sua estadia neste centro de alto rendimento de surf na Austrália melhora o sua performance dentro de água?
O ano competitivo começa agora na Austrália. Está cá toda a gente, todos os surfistas. Agora é Verão, logo podemos surfar todos os dias. E surfamos com os melhores, o que nos motiva. Ao mesmo tempo temos treinos com os melhores treinadores do mundo.

 

Estão aí os melhores treinadores do mundo?
Não. E há alguns que nem se adaptam a nós. Mas temos cá treinadores muito bons, que já fizeram alguns surfistas campeões do mundo.

 

Pode dar-me um exemplo?
O Martin Dunn é muito bom. Trabalha aqui no centro, na Gold Coast, onde costumam vir surfar o Mick Fanning [campeão do mundo] ou a Stephanie Gilmore [campeã do mundo]. São vários os exemplos de surfistas que têm tido bons resultados. Mas gosto imenso de vir para a Austrália para ganhar ritmo e consistência.

 

Como é o seu dia-a-dia?
O despertador toca às seis da manhã. Come-se qualquer coisa e vamos ver o mar. Esteja bom mau entramos na água. Hoje [ontem] estava horrível, mas entrámos. Surfamos e depois vamos às compras ou à Internet, no que demoramos cerca de uma hora. Depois almoçamos. E ao fim da tarde vamos correr ou surfar.

 

Quem está aí consigo?
Agora está só a Francisca Sousa. Daqui a uma semana chega a Raquel Sampaio e a Joana Machado.

 

Tem saudades de casa?
Agora está no início, mas claro que sinto saudades. Temos de ser nós a cozinhar e estou habituada a chegar a casa e a ter tudo feito [risos]. Tenho saudades daqueles mimos que temos em casa e de estar com os meus pais e os meus irmão, que é sempre bom.

 

Como é a sua alimentação? Tem estranhado a comida?
Não estanhamos muito porque somos nós que fazemos as compras, mais ou menos como em Portugal. Embora aí sejam os nossos pais que fazem as compras. Mas tomei atenção ao que os meus pais fazem e agora já estou a aprender. Mas é claro que nunca sabe ao mesmo.

 

Mas a alimentação é muito diferente?
É um pouco mais “gordurosa”. É um sabor diferente mas sabe bem.

 

Comem-se muitos hamburgueres e pizzas?
Sim. Quando vamos ao MacDonald’s, automaticamente, pensam que vamos pedir coca-cola, mas pedimos água por estarmos a treinar e todos os dias faz mal. E eles ficam a olhar para nós a pensar “água?! Ninguém bebe água.”

 

Como consegue conciliar o curso de Gestão que está a tirar na faculdade com o surf?
Neste momento, como os campeonatos são na mesma altura que os exames, suspendi este semestre. Só vou fazer este semestre em Setembro.

 

Após a boa temporada que fez em 2009 ganhou mais patrocínios?
Não tenho mais patrocínios, mas os que já tinha foram melhorados. Os meus patrocínios apoiam-me agora mais. Este alojamento é pago pelos patrocínios. Tenho sorte.

 

Pretende fazer do surf carreira?

Sim. Enquanto puder fazer do surf profissão, porque ganho dinheiro com isto, não muito mas ganho, vou continuar a surfar. Desde que dê para estudar ao mesmo tempo e que vá tendo noção das coisas continuo. Quando perceber que não dá desisto.

Entrevista com Joss Stone

Vinte e dois anos, quatro discos e muito funk e soul a correr-lhe nas veias. Joss Stone atende-nos o telefone a partir de Nova Iorque ainda antes de começar a digressão do novo disco. Está com a voz atacada e com o nariz entupido... para uma cantora é horrível. Mas não perde a boa disposição nesta conversa com o Metro.

 

Esta vai ser a sua segunda vez a actuar aqui em Portugal. Qual foi a melhor memória que levou de cá?
Talvez o público. Foram óptimos, sempre muito divertidos! Senti uma grande energia. É por causa do público que eu quero voltar.

Da primeira vez veio ao festival Rock In Rio. Desta vez vai actuar em dois concertos próprios. E o do Porto é no dia dos namorados!

Ohhh... que giro! Bem, quero que seja um espectáculo mais íntimo, com elementos mais acústicos. Tirando isso... quero apenas curtir e improvisar, como sempre. Não gosto de pensar, de organizar muito, senão fico entediada.
 

O seu novo album “Colour Me Free” foi feito em apenas uma semana. Foi fácil?
Se te envolveres com as pessoas certas, com grandes músicos – que foi o que fizemos – não podemos errar! Mas nunca deve ser difícil. Se é uma luta, nem se deve começar a fazer…

Como é que uma cantora tão jovem, com 22 anos, tem já quarto álbuns e uma ligação tão natural à música soul e funk?
Não sei muito bem. Acho que é apenas porque adoro esta música. E depois sempre me rodeei de músicos que também adoram esta música, como a Betty White, por exemplo.

Qual é a primeira recordação que tem da música?
Ah, meu Deus! Talvez, de quando tinha três anos, a minha mãe a tocar Anita Baker – o soul vem daí. E o meu pai a tocar James Brown.

 

 

Este seu álbum parece ter um som um pouco mais cru, mais sujo. Concorda?
Isso talvez seja do facto de ter sido feito numa semana. Eu quis que fosse assim, quis que toda a gente andasse rápido. Foi do género: "Vamos lá pessoal, toquem! Não pensem! Toquem o que vos venham à cabeça!" Foi interessante. Estava toda a gente a dizer "Temos de fazer tudo perfeito." Não temos não! Temos de fazer música. E foi isso que fizemos. E acho que ficou muito cru, muito verdadeiro.

É curioso que tem dois convidados completamente distintos, o rapper Nas e o lendário guitarrista dos Yardbirds, Jeff Beck, juntos no mesmo album.
Eu pensei, “por que não?” Estamos numa altura em que as pessoas pensam que a música soul é um género. Mas não é: é um feeling. É por isso que se chama soul. Pode ser reggae, hip-hop, rock, blues, R&B, jazz, clássica. Tudo o que quisermos, desde que o sintamos.

  

O seu disco tem muitos elogios, mas a capa foi considerada pela revista Pitchfork uma das piores do ano!

Ai meu Deus! (risos)

Qual é o conceito da capa?

Eu não sou nenhuma modelo... Quis ser artística, não bonita. E quis que significasse alguma coisa.

E o que significa? Aparece presa numa jaula...
Yeap. "That would be correct, sir"… (ri-se e pausa) … Acho que a ideia é auto-explicativa. E vai bem com o título do disco.


Tem que ver com os problemas da editora devido aos adiamentos do álbum?
Yeap! (ri-se) Mas não quero falar sobre isso...