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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Entrevista com The National

 

 

 

O METRO falou com Aaron Dessener, um dos compositores da banda. Foi na garagem dele, em Brooklyn, que os The National construiram o estúdio onde gravaram o sucessor do aclamado "Boxer". "High Violet" é o novo disco do grupo de Matt Berninger, Aaron e Bryce Dessner, Bryan e
Scott Devendorf. A 18 de Julho vamos poder vê-los no festival Super Bock Super Rock.

 

Como foi ir para estúdio depois do sucesso de "Boxer"? Foi difícil fazer este disco?
Acho que foi mais fácil, porque construímos um estúdio na minha garagem, nas traseiras da minha casa, em Brooklyn. E isso parece que deu uma espécie de naturalidade e um tom caseiro ao disco. Foi um processo mais orgânico e com menos pressão. Para nós o mais difícil é acabar as músicas...

Essa é outra história, mas já lá vamos! Então este álbum foi como fazer um disco em casa.
Sim, porque o meu quarto é, literalmente, ao lado da garagem. Eu acordava e ia para lá. Foram 13 meses a experimentar e a gravar músicas, muitas delas que nem sequer estão no disco. É um disco muito épico, grandioso, mas com esse tal toque caseiro. Carrega uma humildade.

Essa ausência da pressão de um estúdio tem reflexo na música?
Podemos ser mais espontâneos nas nossas ideias, na bateria, nas guitarras. No estúdio estamos quase sempre a dar o máximo, porque estamos a alugar o espaço. Não é que seja mau, estarmos a esforçar-nos, mas quando estamos em casa – e na garagem – toda a gente sabe que pode repetir um milhão de vezes. Acho que o "Boxer" é um álbum incrível, mas é muito polido, muito considerado. Este "High Violet" é mais orgânico, mais casual, mais complexo.

Conseguimos ouvir mais algumas orquestrações, por exemplo.
Sim, acho que se deve a podermos ter tido o tempo para trabalhar que quisemos. É um disco mais elaborado, nota-se isso na textura, mais sólida, e acho que isso se deve à orquestração.

 

 

 

 

Estava a falar da dificuldade de finalizar uma música nos The National. Que história é essa? A que se deve isso?
Acho que é porque há cinco opiniões na banda, todas elas muito conscientes. Não há apenas um compositor que traz músicas, mas antes um processo colaborativo. É uma coisa muito democrática e encontrarmos um ponto central em que todos nos entendamos, estes cinco homens, é uma guerra! E depois somos todos ouvintes obssessivos de música e queremos fazer música que nós gostemos. Sabemos que não é fácil fazer boa música. Música fácil é o mais fácil de se fazer, até porque nós fazemos muita. E deitamos fora. É importante ter a sabedoria de deitar fora as músicas mais fáceis, mais óbvias, mais convencionais. Não é que estejamos a tentar reinventar o rock and roll, só queremos é fazer músicas honestas com emoção e sentido.

O facto de o Matt apenas cantar ajuda ou dificulta o processo de composição?
Acho que torna mais difícil. Ele não toca nada. Canta, escreve, arranja umas melodias. Ele demora muito tempo e nós escrevemos muitas músicas para ele que ele nem sempre acha interessante. É um processo estranho, sabes? Não é intuitivo, é idiossincrático. Parece que andamos em falsas partidas, más experiências até chegarmos àquilo que achamos que é o melhor. Mas calculo que é o que faz qualquer compositor: tentar tudo e procurar aquilo que é especial. Mas não faz mal que o Matt não toque nada, é quem ele é!



Parece que existem alguns conflitos na banda. Mas também são esses conflitos que fazem com que os The National criem música? Estarei certo?
Bem... talvez... Não são conflitos pessoais, são fricções. Nós já somos uma banda há mais de dez anos e quando fazemos um álbum é um processo de criação muito intenso, porque sabemos que o vamos estar a tocar depois durante dois ou três anos. Todos nós nos preocupamos muito. Há fricções, tensões e lutas, mas acho que dessa tensão e frustração sai boa música, sim... Adorava que fosse mais fácil, mas acho que o som da banda vem mesmo deste processo. Mas não deixa de ser divertido.

Até porque os cinco membros da banda terão bom gosto em música. Isso também não facilita, será cada um a puxar para o seu gosto.
É verdade. Ninguém vive isolado e acha que aquilo que ouve e escreve é que é de génio. Estamos muito consciente de toda a música e quando pomos um álbum cá fora é para partilhar com a melhor música que já foi feita. Nós não conseguimos comparar, mas os nossos fãs costumam fazê-lo e isso é bom!

Já começaram a apresentar o disco ao vivo?
Estreámos em Londres, em dois concertos. Estamos entusiasmados, porque temos muitas músicas e é uma experiência interessante para o público.

Qual foi o feedback que tiveram do público?
Têm sido óptimas. Sentimos que as pessoas estão a gostar. Mas a nossa música costuma demorar algum tempo a entrar nas pessoas... não sei porquê. Mas agora já está na net. Acho que vai ser interessante ver como é que as pessoas reagem às novas canções.

Qual é a sua opinião sobre os downloads de álbuns na Internet? A favor ou contra?
Eu tenho uma opinião ambivalente. Acho que são excelentes para a música, porque as pessoas ouvem mais música e isso é bom para as bandas. Mas eu, se puder, compro o disco porque gosto e tenho em conta a qualidade. Mas é uma realidade inevitável, que as pessoas fazem o download ilegal de música. Mas eu prefiro que as pessoas conheçam mais a música, por isso é algo que não me faz perder o sono.

Vêm este Verão para tocar no Super Bock Super Rock. Têm boas memórias?
Adoramos tocar em Portugal! É, de longe, um dos nossos países preferidos para tocar. Tivemos um concerto espectacular, perto do Porto, em Guimarães, memorável, há dois anos. Um dos melhores. O ambiente em Portugal, a paixão das pessoas pela música, é algo de extraordinário. Vamos no Verão e sei que voltamos depois, de certeza.

 

 

 


É curioso que a vossa música não aparece muito nem na rádio nem na TV. Mas conseguiram criar um hype interessante à vossa volta. Como se explica?
Brincamos e dizemos que somos uma espécie de banda de sussurros nos becos. As pessoas falam de nós em surdina! Beneficiamos muito do boca a boca e da paixão que os fãs têm por nós e em Portugal é algo em que isso salta muito à vista. Noto isso com outras bandas, também em Portugal: por exemplo, os Arcade Fire, quando tinham editado apenas o "Funeral", tinham 20 mil pessoas a cantar as músicas deles. Há uma cultura underground em Portugal muito forte. Nós, se calhar, só agora é que estamos a sair um bocadinho desse movimento e a prestarem-nos mais atenção.

Os media tratam-vos bem?
Acho que sim, a maioria. Temos sempre um grupo de pessoas que nos ouvem rapidamente e muito casualmente. E daí vêm os rótulos. Não são essas as pessoas que devem ouvir a nossa música, porque não é nada superficial. Tem várias camadas, muito significado. O próprio espaço entre as palavras é importante... gostamos mais das pessoas que dedicam tempo aos discos e que respondem pessoalmente ao que lá está.