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Luz Casal: "Um bocadinho de aventura é sempre necessária"

Aqui fica a entrevista completa com a cantora espanhola, Luz Casal, a propósito do seu primeiro disco de boleros, "La Pasión". Encontrámo-la num hotel em Lisboa, entre várias viagens de promoção deste novo trabalho. Luz estava cansada, mas grata pela vida que sente voltou a reconquistar depois de ter ultrapassado um cancro, em 2007.

 

Quando li o nome do disco, “La Passión”, pensei que falasse mais de felicidade. Mas encontrei um álbum mais sofrido, de desencontros, de zangas e distâncias. São as coisas do amor, digo eu.
É verdade, são as coisas do amor e da vida. É assim! A primeira coisa que quis fazer foi um disco de homenagem ao bolero e o bolero é assim. Há uma canção que se chama “No, No y No”, que é quase frívola. A paixão é, fundamentalmente, uma atitude, mas fala de coisas do coração.

Quais são as suas paixões?
Viver, da maneira mais profunda e completa possível. Tirar proveito da vida, estar hoje aqui, num ambiente muito requintado e depois sair à rua, e caminhar. São as coisas mais belas e artísticas.

Nesta homenagem ao bolero canta músicas de outros compositores. O que é que encontrou nessas letras que a seduziram a cantá-las?
O bolero é um género de música em que as melodias são quase sempre muito belas. As histórias têm sempre detalhes cantados em espanhol, mas que variam consoante os países, como do Chile, Panamá ou México. O castelhano pode ser diferente. Mas o que me fascinou foi que eu, que pertenço ao pop e ao rock, pude cantar canções assim, que estiveram num ambiente muito diferente, com novos som e arranjos, que formam um espaço e uma maneira de cantar diferente. E eu adoro descobrir autores e compositores de diferentes países, homens e mulheres, que fizeram canções há muitos, muitos anos. Neste caso, nos anos 40 e 50.

A Luz cantou pela primeira vez um bolero no filme de Pedro Almodóvar, “Pensa em mim”, há 18 anos. Foi aí que descobriu o bolero?
Profissionalmente sim, porque descobrir o bolero é como descobrir o fado: se procuras, encontras tesouros. Todo o mundo latino conhece.

Mas profissionalmente foi nessa altura.

Foi aí que senti que era um género de música que tinha acompanhado até os meus pais e os meus avós.

E porquê só agora um disco de boleros?
Porque sim! (risos). Há muitas pessoas que pensam que eu ia fazer este disco depois do filme. Mas não era o momento, não sentia. Não  gosto de fazer as coisas de forma fácil. Acho que um bocadinho de aventura é sempre necessária. Foi em 2007 que, num dia como o de hoje, que me levantei da cama, e disse: "vou fazer o disco. Agora sim."

Parece notar-se alguma emoção na sua voz e nas suas palavras. A gravação deste disco foi mesmo assim, emocionada, ou é a sua forma de cantar?
A forma podia ter sido ainda muito mais expressiva, mas quando tenho palavras e melodias que saem do interior, canto dessa forma. Num concerto que canto canções como “Pedaço de Cielo” ou “Rufino” – sobre uma forma frívola de ser – faço-o de forma diferente, variada. Do meu ponto de vista, é uma sorte poder cantar canções com vários sentimentos. As gravações são quase as originais, que cantei com os músicos. Por exemplo, a “Con Mil Desenganos” estava constipada, com a voz apanhada, e ouve-se eu a tossir! Mas segui.

A última música do disco chama-se “La Cigarra”. Por que é que a deixou para o fim?
Bem, não é um bolero. É das canções mais recentes, escrita pela compositora argentina Maria Helena Walsh. Quando ouvi a canção pensei: “Esta é uma boa canção, apareceu na minha vida neste momento... e tem uma frase que me tocou especialmente: “Tantas veces me mataron, tantas veces me morí, Sin embargo estoy aquí resucitando”. Estava num período de tratamento contra o cancro, pensei que era uma frase muito sugestiva para dizer às pessoas: “São palavras escritas por outra mulher, não por mim, mas o sentimento é o mesmo que vivo”.

A Luz é vista como uma mulher com muita garra e muita força. De onde vem?
(ri-se). Queria saber-se para colher e não soltá-la! Acho que tenho na minha vida muita ilusão pelas coisas, por crescer, por ampliar o conhecimento sobre a música e das pessoas. É como ter o olhar de uma criança. Creio que guardo o espírito dos meus primeiros anos praticamente intactos, ainda que tenha as minhas decepções, como todos. Mas quando se trabalha com o corpo, com as emoções, é muito desgastante. É como se esfregasse muito a pele e chegará a um momento em que não há pele, só haverá o osso. É difícil, mas tenho a sensação que a força vem, sobretudo, da minha ilusão.

A ilusão dá-lhe uma pele dura!
Eu não... sou muito frágil! (sorri)

É apenas aparente.
A minha mãe diz que eu sou como as princesas dos contos de fadas: se me puserem uma ervilha na cama, eu noto!

Uma das coisas que se fala muito nas suas entrevistas é a sua doença. Isso também foi importante para a forma como canta hoje?
Acho que sim, tudo o que vivo reflecte-se na música: as músicas que escrevo ou que canto. Mas não posso dizer que o que canto é graças a isso. São experiências duras da vida, doenças quase mais da alma do que do corpo. Acho que não há ninguém que esteja preparado para estas situações e, no meu caso, vai saindo-se pouco a pouco. Fortalece-se o pensamento. No meu caso, comecei a fazer o disco “Vida Tóxica”, durante o tratamento.

É um estilo que quer continuar a fazer e talvez a escrever?
Quem sabe? O que tenho claro é que sou uma pessoa versátil e interessada na música, em geral. Tenho interesses diferentes e é um estilo que sei que posso fazer, mas do futuro não sei nada...