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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Ricardo Ribeiro: Tudo isto é fado

 

Ricardo Ribeiro tem 28 anos, uma voz e alma de fadista como se encontra pouco. Aqui fica a entrevista completa que saiu na edição de hoje do METRO.

 

Este disco chama-se "Porta do Coração". E é uma porta aberta.
É. Porque o fado nasce à porta do coração e morre à porta dos lábios. Acho que toda a música tem a ver com o coração, mas, ao contrário do que muitos pensam, o fado não é uma música pobre: é uma música simples. Vive muito da força emotiva que o fadista lhe dá e vive muito da capacidade do estilo. Uma das coisas mais importantes no fado - e isto foi-me incutido, foi-me ensinado pelas pessoas mais antigas com quem eu lidei - é criar um estilo próprio de cantar. E o fado vive sobretudo disso. E do coração, ou seja, da carga emocional que tens para lhe dar. E depois o fado é uma coisa que acontece, não é uma coisa sobre o qual temos domínio. Por isso é que as pessoas ficam arrepiadas – não temos isso ao no nosso domínio. O fado é que me deixa cantá-lo a ele. E depois cumpro a minha função.

Diz que o fado também lhe foi ensinado. Mas o que se ensina e o que é que se pode aprender?
Há erros crassos que se dão em qualquer canção. Mas houve pormenores que me corrigiam, como a dicção, as divisões. O fado é capaz de ser das poucas do mundo em que a música obedece à letra – e vice versa. Diziam-me "Não faças dessa forma, faz da outra"; "Olha que aí não podes acentuar...", por exemplo. Uma coisa é o fado enquanto canção, e poesia. Outra é enquanto a alma e o fenómeno completo. Ensinaram-me os pequenos pormenores.

Mas o resto não é ensinado.
O resto não. É a capacidade de interpretação e, sobretudo, fazer com que o fenómeno aconteça.

E como é que o fado apareceu na sua vida?
Em criança recordo-me de ouvir a minha mãe a fazer a lida da casa e cantava fados, com uma voz de pregão lindíssima. Ainda hoje sei todas as melodias que ela cantava. A minha tia Suzete era uma verdadeira aficionada do fado e tinha montes de discos, de vinis, de cassetes. Eu ouvia aquilo em casa e aquilo fascinava-me... não sei explicar. Era uma criança, pelo amor de Deus! Tornava-se algo tão fascinante... Depois foi a minha vida, com a minha adolescência, tive os meus problemas, não interessa... Até nem foi muito normal, mas eu posso queixar-me é de mim e não da vida. Eu alimentava-me apenas daquilo e queria cada vez mais. É como estar apaixonado por uma mulher: quer-se sempre mais, aproximar-se dela e descobrir o que ela é.

Era o fado que o ia completando?
Quem sou eu à idade que tenho para chegar a alguma conclusão da vida, mas uma das coisas que me fascina imenso e me deixa bastante pensativo é a paixão que faz mover o fado. A paixão que me faz mover perante ele. E acho que o fado precisa de cada vez mais de quem o ame, porque tudo isto vive sobretudo de uma coisa que se sente, que é a paixão. É gostar muito de uma coisa e torná-la maior.

Mas uma coisa era ouvir o fado e consumir o fado. Outra coisa era cantá-lo. Como é que passou para a interpretação?


É simples: eu cantava por cima dos discos e um dia a minha tia levou-me a uma colectividade lá no meu bairro, à Académica da Ajuda. Estavam lá dois guitarristas: o senhor Carlos Gonçalves e o 'Ti Zé Inácio. Começaram a tocar e a determinada altura a minha tia disse-me "Vais cantar. Já sabes aquele fado todo, e  tal, vais lá". Eu não sabia o tom, fui ter com o violista e com o guitarrista e o apresentador pediu para tirarem o tom para mim. E nunca mais me esqueço: o' Ti Zé - que acabou por ser das pessoas que mais me ensinou e histórias do fado contou, olhou para mim e ele é assim gordo, é o Ti Zé Bola - de cigarro na boca, guitarra no colo, olha-me de lado e diz: “Ai ai ai... lá estão a meter as criancinhas a cantar”. E lá tira a afinação do fado e lá cantei. Depois tiraram-me outros tons e assim sucessivamente. Mas era uma criança e era uma graça.

Então quando é que se apercebe que tinha todo este talento?

 

A única coisa que percebi é que queria isto. Agora o valor e o interesse foi sempre dado pelas pessoas. E isso é a minha maior forma de gratidão para com as pessoas é não as desapontar e continuar a cantar e a lutar. E daí esta coisa do disco ser um pequeno presente para a família do fado. Foram essas pessoas que me tornaram algo de interessante no fado. Independentemente do meu talento. Eu ambicionei fazer outras coisas na vida, mas o fado estava sempre presente: eu ia para a escola e cantava na festa da escola. Mas uma coisa é certa: sabia que tinha talento e um certo jeito e as pessoas é que notaram algo em mim. E porque o fado assim deixou.

Como foi a adolescência? Não é normal um jovem de 28 anos viver e respirar tanto o fado como o Ricardo o fazia.
Eu sempre tive o defeito, ou a virtude, de conviver com pessoas muito mais velhas do que eu. Gostava porque, enfim, fascinavam-me as conversas, as histórias. No colégio onde estudei conheci um homem extraordinário: o senhor padre Manuel Alves, que tinha uma sabedoria para lidar com adolescentes e um coração de ouro. Mas nas pessoas mais velhas fascinava-me a forma como eles falavam... é evidente que tinha amigos da minha idade, mas de facto, onde passava mais tempo e me sentia bem era com os mais velhos. Sentia que ali é que estava a sabedoria e o meu avô sempre me ensinou que "onde me cabe o comer, cabe-me o saber".

Falando então do disco: este "Porta do Coração" é o seu segundo álbum. Que fados são estes que canta aqui?
São os fados que eu sempre cantei. Tirando uma ou outra melodia, que aparece só agora ou que cantava de vez em quando, são os fados que sempre cantei, os poemas que sempre gostei. Não tem nada de espanto. Se terá de inovador será o público, as pessoas, os amigos, que vão dizer.

Aos 28 anos tem já uma maturidade muito grande na sua voz. Parece que puxa para o disco o fado mais tradicional, das casas de fado.
Não sei! É uma questão de se perguntar a Deus... e ao Diabo!

Também ajuda, o Diabo?
Sim, Deus é bom... mas o Diabo também não é mau.

Outro elogio tem de ir também para o seu violista.
É! É um espectáculo. O Jaime é fabuloso. Tem uma capacidade de criar ambientes fenomenal. Depois tem fado nele. Às vezes, na brincadeira, costumo dizer que é um carro de assalto: estamos todos em bloco, depois o sabor dos corridos e a maneira como é marcado pelo Joel Pimenta é impecável. Às vezes dou por mim a ouvir e a dizer: “Mamma Mia! Mais um pormenor que não tinha reparado!” E depois somos grandes amigos, o que torna tudo mais fácil.

Onde é que gostava de mostrar este disco? Nas casas de fado ou em grandes salas?
Onde Deus o levar! Onde Deus e as pessoas acharem que ele deve ir. Juro-te, é onde for! Onde as pessoas tiverem vontade que eu vá oferecer-lhes aquilo que eu sei. Eu não me posso queixar da vida: as pessoas têm sido tão minhas amigas, tão boas para comigo... A alma não tem hora, nem espaço, nem lugar. Acontece onde tiver de acontecer. Pode acontecer aqui neste momento, com uma intenção de uma frase que eu te diga. Eu arrepio-me tantas vezes com as frases de alguém. Aí dá-se um fenómeno e pode ser considerado fado, hein? (pisca o olho e sorri).

Além do fado participou noutros desafios: no filme “Fados”, de Carlos Saura, e também no disco “Em Português” do libanês Rabih Abou-Khalil. Que disco é esse?
Basicamente o que se passou foi: Um alaudista libanês, dos mais conhecidos do mundo, um ser humano extraordinário,  e depois como músico é um fenómeno. Cantou poemas portugueses, de Mário Rainho ou José Luís Gordo, que eu ajudei a escolher para as suas melodias. Ele conheceu-me numa peça do Ricardo Pais, que me orgulho muito, chamada “O Cabelo Branco É Saudade”. Na estreia, o Rabih veio ouvir-me e no fim disse-me: “Tu és mais do que um cantor. És algo que eu não sei explicar...” O Ricardo Pais fez depois outro projecto que foi pedir ao Rabih uma versão de “A Casa da Mariquinhas”, o poema do Silva Pais que o 'Ti Alfredo Marceneiro cantou como nunca mais ninguém há-de cantar. E ele gostou muito do que eu fiz, de como cantei e disse: “Ao fim de três tentativas, cantas isto como se fosse a tua língua original...” E foi assim: por entre cigarros, conversas e cafés.

Este estilo árabe é também um estilo que gosta muito. Tem alguma coisa a ver com o fado?
Tem certas frases melódicas que podem lembrar o fado. Mas ouço um cantor ou cantora e é como um fadista: as inflexões e micro-tonalismos... mas são afinações diferentes, com escalas diferentes, mas são pormenores que agora não interessam nada.

Os árabes também estiveram entre nós durante tanto tempo...
Sim, claro! Oito séculos. Nós às vezes queremos renegar certas coisas, mas o povo árabe é um povo maravilhoso.

 

 

Fotos de Isabel Pinto

 

 

O vídeo do single de estreia, "Moreninha da Travessa", realizado por João Botelho.