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Jornal Metro

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Pedro Abrunhosa: Reinvenção com sabor a Caviar

 

Tem uma banda nova, os Comité Caviar. Ao fim de 20 anos custou muito deixar os Bandemónio?
Não, pelo contrário. Sabes que o facto de se começar um processo de novo, do zero, traz alguma emoção, alguma novidade. Pessoalmente gosto disso para todos os departamentos da vida: gosto de começar de fresco, do desafio de arrancar outra vez. É como se regressasse à origem primordial, que foi aquela que me fez fazer música desde os 16 anos. A emoção que sentia quando fazia música, aos 16 anos, numa garagem ou numa cave, ensaiava horas e horas para tocar coisas miseráveis, para ir tocar a um bar e receber cinco escudos. Havia uma emoção nisso, uma vontade, uma energia, que depois à medida que tu vais entrando na indústria, criando sucesso e os grupos vão criando apêndices, vão criando uma capa que os aparafusa a si próprios: managers, agentes, empresários, a indústria discográfica, as regras do airplay. São coisas que começam a moldar aquilo que havia na origem quando tinha o sonho de ser músico.

 

Teve então uma libertação, uma reinvenção.
Sim. Para já foi perfeitamente necessária e voluntária. Não houve zangas, não houve nada! É o fim de um ciclo e como fui eu que fiz foi mesmo bom. Difícil teria sido continuar com uma banda que estava um pouco manietada pela indústria. Os Bandemónio estavam a tornar-se numa instituição e as instituições tornam-se entidades pesadas. Os Comité Caviar são um grupo fresco, de músicos novos e muito activos. É isso que eu gosto.

E quando toca com eles, já sente a mesma facilidade de integração, a mesma cumplicidade que sentia com os Bandemónio?
Sim. Mas repara, os Bandemónio acompanharam-me durante 20 anos. Os Comité Caviar trazem-me outras coisas. Os Bandemónio podiam trazer a experiência. Os Comité Caviar trazem a experiência da novidade, muita amizade e também eles grandes músicos individualmente. Já pude escolher dedo a dedo, caso a caso, os melhores músicos do mercado. Por serem mais novos e trazerem também esse input da faixa etária, da postura em palco e energia. Diria que estou outra vez rodeado dos músicos que sempre quis ter. E creio que isso se nota, até porque o disco é todo gravado ao vivo.

Que tipo de reinvenção quis para este disco, o que estava à procura para este novo ciclo?
Tenho vindo a procurar o formato canção. Uma história que tenha um prólogo, um desenvolvimento e um epílogo. E no meio, os pontos-chave, que são os refrões. E esse é formato de canção que dura quatro minutos, em quem se conta uma história, se transmite uma ideia, uma emoção, é um formato que vem desde a Grécia antiga, dos trovadores do sul da Europa e é transmitida para a canção francesa, europeia e depois para o EUA, para Dylan e Cash. Eu não me estou a meter no meio desses, mas nós, os escritores de canções, somos todos herdeiros dessa tradição. O Sérgio Godinho, o Fausto, o Palma... eu estou a perseguir isso. E quis mudar o som. Eu passo muito tempo nos EUA, em trabalho e essa rotina, o convívio com o som americano, marcaram-me. Isso nota-se desde logo no “artwork”.

Pois, com a estrada em direcção ao horizonte.
Exacto, aquele imaginário daquele disco “road record”.

Da histórica “Route 66”.
A "Route 66" está uma desgraça! Era património norte-americano e está muito mal cuidado. Como o nosso, aliás. Mas há sítios emblemáticos, no Arizona, no Tennessee, em Memphis, nos estúdios House Of Blues, em Minneapolis, em Portland, em Nova Iorque. E há um som norte-americano que passa para os meus discos: com o funk, desde as colaborções com James Brown, Maceo Parker, Prince, etc. Agora há uma outra vertente, essa coisa do "storyteller".

E também se nota no rock gospel que toca, com o recurso a Hammond, às vozes femininas a fazer backing vocals, ou no som a fazer lembrar o Tom Petty.
Acho graça a essa expressão do rock gospel. Todos nós que fazemos rock vimos de uma raiz comum. A não ser os Kiss e os Scorpions (risos), que fazem o chamado rock branco, redneck rock, que não swinga; mas desde os U2, aos Rolling Stones até às bandas portuguesas, têm uma raiz comum, que é o gospel. Já não temos nada a ver com o espirtual, porque isso já foi há 150 anos, mas nas plantações de algodão cantava-se música com o beat que cantamos hoje. “Old Man River, Old Man River [canta e marca o ritmo a dois tempos com as mãos]; ou “Nobody Knows de Trouble I See” [canta marca o ritmo com quatro compassos]. O reggae vem daí, o funk vem daí, o hip hop vem daí. É beber a uma raiz comum. Eu bebi desde muito cedo porque desde novo tinha muito gospel em casa. A questão do Hammond, que apontas bem, eu comprei um Hammond B3, que é um clássico dos anos 50, da Motown, e este disco está muito contaminado por esse espírito. E o Tom Petty é uma referência, claro, como é o Springsteen, o Cohen, o Tom Waits. Mas o Tom Petty sim, é um músico extraordinário ainda por descobrir em Portugal.

Pode então dizer-se que este é o álbum mais rock que já fez. De onde vem essa necessidade do rock?
Ela sempre esteve lá. Se ouvirmos, por exemplo, o "Dá-me tudo o que tens para me dar" [imita o som do baixo]. Essa música é do "Viagens", gravada em 1993. É uma mistura muito cruzada, à Red Hot [Chili Peppers]. Nós os brancos, quando tocamos rock, junta-se tudo. Eu empurrei sempre mais para o lado mais festivo do funk, mas isso deixou tanto de me interessar. Fiz a formação com tradição clássica, depois passei para o jazz como contrabaixista. Tinha vinte e tal anos e ninguém me ligava nenhuma. E não era mau contrabaixista. Depois fundei uma escola, tive uma orquestra e comecei a cantar, Duke Ellington, por exemplo. E de contrabaixista passei para "crooner", a escrever temas em português e também a interpretar temas do James Brown. Sempre fui mudando de  estilos. Apesar de o Duke Ellington dizer que só há dois estilos de música: o bom e o mau. E eu sempre tentei fazer as coisas bem feitas. O rock era uma omnipresença na minha vida, por causa dos meus irmãos, que me metiam em casa os discos todos, desde os Ten Years After, aos Genesis, à tradição da música negra, Robert Grey, Otis Redding, Percy Sledge. Sempre ouvir muito isso.

Mas há coisas que não foge: as baladas que este disco também tem.
Sim, mas estas com um som um bocado diferente. Eu componho sentado ao piano. No caso deste disco, a "Pode o Céu Ser Tão Longe" é claramente um gospel. Não é uma balada é um gospel. É que nem todos os tempos lentos são baladas. A balada tem uma conotação diferente e estas músicas são demasiado enérgicas para serem baladas. O "Não Desistas de Mim" é uma balada, sim. Surgem quando me sento ao piano, porque faço todas ao piano, mesmo os rock são ao piano. Depois são transpostos. E também escrevo à guitarra, e surgem coisas diferentes, óbvio. E não posso salientar o papel do João Bessa, que é o co-produtor: não é possível a mudança de som sem a entrada em cena dele. Desde a captação, que se quis muito precisa, até à mistura, é muito trabalho dele.

 

 

 

 

E a selecção dos novos músicos, como foi?
Foi natural, porque são pessoas próximas. Comecei a substituir os Bandemónio gradualmente e com toda a amizade. Eu conheci o Miguel Barros lá no estúdio e a empatia foi imediata. A mesma coisa com o Pedro Martins, que começou a trabalhar comigo em Agosto ou Setembro de 2008, ainda nos Bandemónio, mas já com perspectiva do Comité Caviar. São pessoas com quem empatizo muito pela música e pela amizade. Acho que o grupo está muito homogéneo até no sentido humano. O Marco Nunes, que fundou os Blind Zero, o guitarrista, vem pela mesma via, é uma pessoa excelente e um grande guitarrista. E o cruzar esta gente nova, com novas formas de tocar, muda a minha maneira de escrever! O Paulo Praça é outro, que vem por necessidade de desdobrar as guitarras, mas todos eles têm uma característica em comum incrível: são de uma humanidade extraordinária, com uma generosidade tremenda para com a música, paixão da música. Isso é importante, porque nós passamos mais tempo juntos do que com a nossa família. Este disco demorou dois anos a ser feito: são dois anos de estúdio! Quando não se está no estúdio, está-se na estrada, no autocarro, nos aviões, hotéis. Faltam-me as duas Patrícias, que fazem os coros, e o Cláudio Souto que é o único elemento que transita dos Bandemónio. Está comigo desde o final dos anos 80: foi meu aluno, com 13 anos, e agora tem trinta e poucos! Já não é o mais novo do grupo e isso também tem piada!

E como vai ser tocar as antigas músicas ao vivo?
Vai ser diferente, porque vão ficar transformadas. Têm mais energia, mais power, isto apesar de os meus concertos nunca lhe faltarem energia. Sei que reinventar as músicas, ao fim de 17 anos, é a solução. Ou se reinventa, ou tem que se deixar de as fazer. Eu já ouvi imensas versões, por exemplo, de “One”, dos U2! Porque senão é insuportável para eles, que tocam todas as noites, há 20 anos. Perde-se a emoção da música. Eu quero é fazer no palco músicas novas, gosto de conquistar o público. É desafiante, por isso nem sempre dou aquilo que o público quer: tem que me agradar a mim também.

O Pedro conheceu há pouco tempo um momento de fama vertiginosa: a queda em directo nos "Ídolos". Esteve na lista dos vídeos mais vistos do YouTube!
E fiquei muito orgulhoso com isso!

Agora com um novo disco foi como vir à ribalta na melhor altura possível. Se bem que por um motivo infeliz...

Acho perfeitamente natural que uma figura, a fazer uma tonteria qualquer, a cair de um palco, desperta sempre curiosidade! É humano. Digamos que, ao contrário da ascenção e queda, viram a queda e agora ascenção! (risos)