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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Rui Zink: "Fazem falta vozes amigas"

 

 

Rui Zink tem um novo livro, chama-se "O Anibaleitor" e "mostra a relação entre um mentor e um aluno". Diz o escritor, e professor universitário, que mostra o prazer da leitura.

 

Qual o ímpeto que sentiu para escrever "O Anibaleitor"?
Todos os livros vêm de dentro e de fora. De fora veio a encomenda para um conto sobre o prazer da leitura. De dentro veio a pergunta: “como falar do prazer sem dar desprazer”.

Já tinha feito um conto com o nome deste livro.
Sim, distribuído em circuito fechado. E é diferente, porque é uma novela. A partir do título e do mesmo motivo fiz um livro novo.

Quando escreve as suas histórias põe muito da sua personalidade na personalidade das personagens?
Não vejo de que outra maneira possa ser. A escrita não é um trabalho mecânico, é um trabalho fluído e temos que estar lá. Como Flaubert disse, “Madame Bovary c’est moi”. Se não ponho lá o meu sangue, a tinta sai seca.

Então este Anibaleitor é também o Rui.
No século XX o que se espera de um escritor é que ele dê a sua  voz e a sua pessoa. O meu instrumento de trabalho sou eu; o de um leitor é ele. O acto de leitura é um encontro entre duas vozes.

Este livro vem também da sua história e experiência como professor, do gosto pelo ensino?
Sim, mas eu devo ser um caso raro em Portugal de pessoa que não separa as águas. Sou escritor e professor, e são duas áreas criativas. A de professor é um falhanço contínuo, porque a aula é o espaço do erro, do improviso. A escrita podemos deixar pousar, descansar, é lenta. E por isso, quando se publica, publicamos o melhor.

Como professor, tem as mesmas atitudes pedagógicas que o monstro Anibaleitor tem?
Bom... quer dizer... eu não como alunas! (risos) Mas sim, porque eu não gosto de dar logo as respostas. Há disciplinas em que a informação é pura e dura, mas a minha área é uma arte mais suave. Nas aulas não gosto de dar a papinha toda.

Acha que faz falta aquilo que o Anibaleitor faz, que é o ensinar a ler, a pensar e descobrir?
Acho que nos faz falta uma voz amiga, um mentor. E isso perde-se um pouco. Este livro é exemplar no sentimento que mostra uma relação entre um mentor e um aluno, em que, a certa altura, o aluno vai à sua vida. Mas este mentor está a dar uma lição de leitura, ao rapaz, mas sabe que as coisas importantes ele tem que aprender sozinho. A leitura é a mesma coisa: eu tenho cá as minhas teorias, mas as pessoas têm de aprender sozinho. Às vezes frustra um bocado os meus alunos e os meus leitores, porque dou as pistas, mas evito dar as respostas.

E relativamente ao rapaz da história, também encontramos muito de si?
Eu sou mais bonito do que o Anibaleitor, apesar de tudo. Ligeiramente. As duas personagens do livro – as três, ou as quatro – sou eu em diferentes fases da vida. Eu aos 15 anos já não sou a mesma pessoa que sou aos 48. Agora estou mais próximo da morte. Aos 15 esta mais próximo da vida.

Foi algo que me pareceu, durante a leitura: o Anibaleitor poderia ser o Rui nesta fase da sua vida, de professor, de mestre. O rapaz, ao mesmo tempo, seria o Rui quando começou a encontrar a literatura.
Está certo, sim. E eu gosto de sublinhar livros, fazer notas à margem, comentários, porque permite que exista, mais tarde, um diálogo com a pessoa que fomos. É como um álbum de fotografias. Ainda hoje gosto de ler as notas à margem que fiz num livro sobre o amor de Roland Barthes.

Daí vêm as contradições.
Sim, elas estão cá. Só que não são as mesmas. No dia em que deixarmos de ser contraditórios, é sinal de que estamos mortos. A contradição – e a contradicção – são energia vital. Coerentes só os mortos.

Está já a escrever outro livro que deverá ser editado este ano, certo?
Certo... bom, semi-errado. Estou a escrever, mas começo a duvidar que o publique este ano. Acho que já publiquei tanto que o meu dever para os leitores, agora, é estar calado e só publicar quando eu puder dizer aos leitores: “olhem, isto vale a pena”. Neste caso, no Anibaleitor, isso é claro. Acho que devia vender como pãezinhos, mas isso não é um problema meu.

Nem é falta de modéstia, como fala no livro.


Nem tem que ser. Se eu achar que escrevo mal, não publico. Aliás, esse é o meu conselho aos modestos. Não acham que escrevem bem? Então dediquem-se a programas de culinária, como a Maria de Lurdes. Eu prefiro pegar num livro que está publicado há 10 ou 15 anos, republicá-lo e oferecê-lo a uma nova geração de leitores, do que estar a impingir uma coisa que ainda não dei tempo. A vitória do livro é colocar-nos fora deste tempo voraz, termos um momento suspenso em que sem esforço vamos para outra dimensão. É mau os livros tornarem-se revistas bimestrais, que dure menos que uma revista numa banca. Esta rotação veloz é contranatura.

Acha que se está a escrever demais em Portugal?
Não é o escrever, porque isso nunca é demais. Estão é a publicar-se coisas que toda a gente sabe que não presta. Faça uma pergunta a um editor: “Acredita em tudo o que publicou este ano?” E vai ver que eles dizem que não.

 

No livro, quando o Anibaleitor descobre que o rapaz que tem na caverna é português, aquele monstro, que só conhece livros, diz que já não ouvia falar dos portugueses há muito tempo. É uma crítica à falta de qualidade?
Não! Tem a ver com o facto de sermos uma sombra de nós mesmos, do nosso mito. Nós temos menos marinha do que um país sem água como é a Polónia! É passarmos do oito ao 80: tornámo-nos um país de empresários com medo do risco. Dantes éramos empresários – na poesia, nos mares – sem esse nome. Precisamos menos de empresários e mais de empreendedores.

Qual é a maior dificuldade que encontra no processo de escrita?
É tentar dizer uma coisa nova, de um modo novo, mas mantendo a facilidade de leitura. É um objectivo que alguns escritores conseguem – fazer livros difíceis, mas fáceis de ler. A mim só me dá gozo fazer um livro que não tenha feito, mas dá-me ainda mais gozo que esse livro tenha uma forma que não impinja a dificuldade. Isso tem de ficar a cargo do escritor. Quer dizer: quero um livro experimental, mas que não pareça (risos).
É muito difícil para mim tentar construir frases e capítulos que não sejam a repetição do que já dito, mas que não se tornem apenas palavrar. É difícil calibrar a necessidade de as palavras não interromperem a história com o desejo de a história não ser apenas feita do já visto. Uma história é tanto mais fácil de engolir quanto a linguagem se tornar discreta. Mas o texto só é literário quando há de facto um trabalho sobre a linguagem. Esse problema não se coloca na poesia: suspende a ligação ao real. A ficção finge que mantém uma relação com o real. Se eu escrever um texto, por exemplo, “O escaparate da pedra”, estou apenas a dar imagens verbais. Não tenho que construir uma imagem na cabeça do leitor.

Calculo que o seu trabalho no dia-a-dia seja muitas vezes de “backspace” e de "deletes", de apagar palavras.
É e dou um exemplo de um lugar comum: “Só se imagina o que se conhece”. É um facto, todos os ET e figuras mitológicas, são prolongamentos de coisas conhecidas. Mas na correcção, na releitura, pode fazer-se algo interessante e trocar. Dá algo como “Só se conhece o que se imagina”. Além de ser bonito, coloca a imaginação como instrumento fundamental para o conhecimento. Eu falo muito na escrita, mas deveria talvez dizer que o escritor é um releitor. Antes de um escritor impingir qualquer coisa aos outros devia, por honestidade, relê-la umas cem vezes.