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Jornal Metro

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Tiago Bettencourt: A pedalar para se pôr em fuga

 

Esta é a conversa que o METRO teve com Tiago Bettencourt e que deu origem à entrevista que saiu hoje no Metro a propósito da edição do novo disco "Em Fuga".

 

O Tiago saiu de um “Jardim” [o último disco] e põs-se “Em Fuga”.
Por acaso não tinha associado os dois... o nome do disco só surgiu depois de gravarmos. No final perguntaram-me como se ia chamar e eu não sabia. Mas a certa altura veio-me esta ideia à cabeça. Vem a imagem do ciclista que sai do pelotão e também associei muito às letras e ao facto de falarem muito em fugir, mudança e largar coisas. É também uma fuga ao pelotão porque há muito tempo que não me sinto em nenhuma tendência de cá da terra, sinto-me um pouco sozinho no lugar onde estou e também pelo que o álbum sugere: largar coisas que nos fazem mal e agarrar o que nos faz bem.

Mas está a tentar soltar-se de alguma coisa?
Bom, eu gostei da imagem. Não quer dizer que esteja a fugir... acho que a certa altura basta olhar o panorama musical e dá para desvendar as tendências: quem está com quem e a fazer o quê, o que o público pede, a ir de acordo com modas. É a coisa que eu mais detesto, é ouvir um artista e perceber de imediato em que nicho é que ele se está a tentar inserir. O que eu faço no meu trabalho é fugir disto tudo. O princípio dos ensaios foi muito difícil... tocava guitarra e pouca coisa me comovia. Sabia que as músicas podiam ser muito boas, mas tínhamos de perceber como, já que eu não me estava a contentar com o som normal de bateria, de guitarra eléctrica. Tive que exigir muito dos músicos com quem estou a tocar, em termos de criatividade, de querer sair do instrumento e arranjar novas formas de tocar, novas baterias, novos tiques de guitarra. Coisas com nervos diferentes, para me comoverem.

É nesses pequenos detalhes dos músicos que estão as mudanças, as fugas?
É o princípio, é começar a perceber e a desprendermo-nos daquilo que já sabemos. Por exemplo, o João [Lencastre] é muito bom baterista, mas o que quero é que descubra coisas novas no instrumento, que se veja à rasca para tocar, um toque qualquer que nunca foi buscar. É incentivar a ir para lá do que já sabem. Não quero músicos que só estejam a fazer o trabalho simples, quero que se divirtam.

E o Tiago, como se desprendeu dos vícios de sempre da escrita?
Eu tenho noção dos vícios, mas há alguns que não me importo de ter. Mas há lugares pelos quais já passei e não quero voltar, outros que acho giro passar por lá. Como um pintor que tem símbolos que se encontram aqui e ali nos seus quadros, aludindo a trabalhos anteriores. Mas não gosto de parecer igual e acho que estou muito mais exigente comigo próprio. Estou a escrever muito menos letras que dão música, porque não fico contente com qualquer coisa. Isso faz-me ser menos complexo o que torna estas letras muito mais minimais, mais abertas e vão mais directo ao assunto. É uma fase que estou a passar!

O título deu-me muito a ideia de repentismo, de impetuosidade. Isso traduz-se no próprio disco?
Acho que as minhas músicas são sempre uma reacção àquilo que se passa à minha volta. Tem a ver com a reacção que eu tenho à reacção das pessoas. Falo muito sobre relações, mas também falo muito sobre o estado de consciência das pessoas e o que me inquieta. Mas o que me faz escrever músicas tanto pode ser a fúria como a serenidade. “O Caminho de Voltar” vem exactamente daí: fui fazer um retiro, porque estava meio a atrofiar aqui em Lisboa, e fui para Marvão. Andei no parque natural à volta, arranjei um penedo com umas vaquinhas à volta... e a música começa com “há sempre um sítio para fugir”. Essa música vem muito da serenidade, de um escape.

Mas se calhar também se deu o repentismo de ter a necessidade de sair e isolar-se.
Exacto. Acho que as melhores músicas são as que nascem de uma necessidade de escrever qualquer coisa. Por isso é que quando não tenho de fazer música, não faço. A última música que fiz acho que foi a “Se cuidas de Mim”, que foi gravada em Junho. Não tenho medo de estar a passar por um período de branco, porque sei que o resto do tempo são momentos  de absorção e que há-de escoar de qualquer forma.

Voltou ao Canadá para gravar este disco.
Sim, cá em Lisboa, com banda, e depois em Montreal para fazer umas vozes, misturas e masterizações.

E com o mesmo produtor, o Howard Bilerman. Porquê?
Acho que descobri a pessoa que tinha a maneira de trabalhar que andava à procura desde sempre. Mas quando comecei a fazer música, não sabia o que queria, o que gostava. O Howard é um gajo muito “old school”, trabalha muito com o erro, com a parte intuitiva da música. Andamos à procura não da perfeição técnica, mas antes de emoção perfeita. Ele é muito bom a tirar o que temos de melhor e a captar muito bem, claro está. Isto já na parte técnica. Já é um amigo, o estranho era se não gravasse com ele, tanto para mim como para ele. Acho que ele ia ficara muito triste se não tivesse feito este disco com ele (risos).

 

Faz uma música com a actriz Inês Castel-Branco. Como teve a ideia?

Ela é minha amiga e ouvi-a a cantar uma vez na TVI, num dueto com a Jacinta. Ela tem uma voz muito infantil, verdadeira. E é isso que me comove numa voz: não tanto a capacidade técnica, mas antes a verdade e o sentimento. Isso passa na voz dela. Precisei de uma voz diferente, para uns coros, para um projecto que tinha, que era o "Tiago na Toca" e achei que ela era a ideal. Acabei por falar com ela e convidar também para fazer duas músicas para este disco: a "Tens que largar a mão" e a "Se cuidas de mim", que gravámos cá, na casa de banho, assim meio crua, com dois microfones, que foi a que ficou. O Howard gostou muito e acabou por ser o take que ficou!