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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Abençoado sejas, Belzebu

Os Diabo na Cruz, mais um  grupo da FlorCaveira (que conta com Jorge Cruz, B Fachada, Bernardo Barata, João Pinheiro e João Gil ), tem feito um enorme sucesso, pela união da música tradicional portuguesa com o rock. O Metro foi maroto e levantou um bocadinho as sete saias “às meninas” deste quinteto para tentar desvendar as origens do grupo e como surge um dos melhores discos portugueses de 2009, “Virou!”. Jorge Cruz explica. O grupo toca amanhã no São Jorge, em Lisboa, e sexta-feira no Passos Manuel, no Porto.

 

Como nasceu este grupo?

Isto é um grupo que surge no ambiente musical de Lisboa. São todas pessoas de bandas de Lisboa que se cruzavam e juntámo-nos um bocado para perseguir uma ideia que eu já tinha, de mexer com a música popular portuguesa, num ambiente de rock, até porque somos todos músicos de rock. Começámos a trabalhar há ano e meio, só com três, mas acabámos por fazer a junção na voz do B Fachada, a viola braguesa que ele toca, mais as teclas. Começou comigo, com o João Pinheiro e Bernardo Barata.

 

O Jorge já tinha tido uma banda antiga, os Superego, que também tinham um pouco este conceito.

Não inicialmente, mas quando a banda terminou já era um bocado essa a ideia. Na altura não estava um ambiente muito convidativo para o que estávamos a fazer, encontrámos muitos obstáculos. Também era a altura de vida em que se está a mudar de ser rapaz para ser homem e tem que se fazer mais à vida. É uma altura difícil para uma banda continuar, se não houver um objectivo muito exequível.

 

De onde vem o interesse pela junção entre o rock e o folclore? Já foi definido como Folc'roque.

Não me atrai muito a palavra folclore, precisamente pela ideia quase turística. Eu cresci a ouvir música popular. Nasci em 1975 e os meus primeiros dez anos foi a ouvir essas músicas, que se ouvia lá em casa, e a ir a concertos do Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Trovante. Formei-me um pouco mais influenciado pela música anglo-saxónica e a querer fazer rock. Mas às tantas decidi juntar as duas coisas, que era o que fazia sentido para mim.

 

Que dificuldades são essas que enfrentou nos Superego? O que acha que mudou para ser este o momento para mostrar estas ideias?

Sinto que as pessoas estão preparadas para receber as ideias. Acho que mudou muita coisa, a aceitar-nos mais. Viemos de um trauma desde a ditadura, um trauma existencial a que o José Gil chamou “medo de existir” e que, gradualmente fomo-nos libertando, porque temos que lidar com quem somos.

 

A ligação à editora FlorCaveira  - que tem lançado tantos músicos – ajudou à amostragem do Diabo Na Cruz?

Ajuda porque vir da FlorCaveira faz com que as pessoas queiram ir ouvir mais depressa. A editora conseguiu criar essa credibilidade e atenção. Mas nós, que estamos juntos, associados à FlorCaveira, à AmorFúria ou à Catadupa, a malta que se tem juntado, tem é coisas em comum. Não é a editora que começou a encontrar músicos e pô-los para o mundo, tipo Motown. Já existíamos e fazíamos músicos antes de aparecer a FlorCaveira.

 

Mas acaba por ser um bocado a lógica da cooperativa, que todos juntos são mais fortes.

Acho que sim. Aliás, os líderes disto tudo, o Tiago Guillul e outros, não gostariam, mas acho que tem muito de cooperativa, mesmo no lado esquerdista que não lhes agrada muito! (risos)

 

Ficaram surpreendidos com a reacção ao disco, já que foi considerado um dos melhores discos portugueses de 2009?

Até certo ponto sim, mas não fizemos a banda para esse reconhecimento. Mas também tínhamos consciência que estávamos a fazer uma coisa interessante e a tentar fazer um certo caminho musical, em busca de um som, de uma união de linguagens. Não chegámos a nenhum fim. Percebemos o interesse que tinha para nós, portanto pensámos que também teria para outras pessoas. Está a superar as expectativas.

 

O facto de os membros terem as suas carreiras a solo pode ser algum impedimento para a continuidade dos Diabo na Cruz?

Não é altura nem temos falado sobre isso. Mas percebo que a determinada altura tenhamos de conversar. Antes de mais sentimos o privilégio de ter chegado aqui, de termos um objecto final em conjunto. Podemos tocar ao vivo e divertir-nos, que é isso que acontece. Há que usufruir e vamos ver onde nos leva, porque isto não é uma coisa cerebral, não foi uma coisa feito a partir de castings. Enquanto nos divertirmos, vamos continuar.

 

Porquê a escolha do Vitorino para tocar na primeira música no disco?

Já no meu disco anterior tinha feito uma versão da “Lua Extravagante”, um tradicional alentejano, e penso que isso ter-lhe-á chamado a atenção. Foi uma honra enorme, porque é uma pessoa por quem tenho uma enorme admiração e foi um convite natural, que já tinha sido conversado em bastidores. Acabou por ser neste momento e veio mesmo a calhar, foi como dar-nos autorização de mexermos sem pudor nas nossas linguagens.

 

Está prevista a participação do Vitorino nos vossos concertos?

Não o tenho chateado com isso, mas espero que venha a acontecer. Acho que neste momento é importante de nos apresentarmos como somos. Se houver essa oportunidade, não faz sentido que seja só um tema, mas antes uma coisa especial, que o honre e homenageie.

 

 

Vão tocar amanhã no Cinema São Jorge e sexta-feira no Passos Manuel, no Porto. Como tem corrido a digressão?

Tem sido muito bom, temos estado muito entusiasmados e temos tido muito prazer em tocar a nossa música. As pessoas reagem bem porque a música talvez lhes diga qualquer coisa: talvez remeta para os nossos antepassados, mas também está situada no século XXI. É divertimento, apesar de termos momentos mais profundos no concerto. Muito nos espera agora. O concerto do São Jorge é uma sala especial e a nossa ideia nunca será confinar isto a Lisboa e Porto, porque a nossa música inspira-se no trabalho rural, naquilo que é a música de ceifa, a música da tradição oral. Queremos tocar em Portugal inteiro.

 

Disse que não gosta muito da ligação ao conceito do folclore, mas escolheram para a capa do disco, uma imagem apelativa, uma dançarina de um rancho. De quem é a autoria da capa?

É do Paulo Ribeiro, da FlorCaveira, e tivemos de ter autorização para ter uma imagem tão ousada na capa de um disco de uma editora cristã. Teve de ser alguém da própria editora. É uma ideia simples, mas estamos a mexer com alguns ícones daquilo que é português. Mas somos uma banda de rock, mas pareceu-nos uma boa ideia ter uma imagem despretensiosa e descomplexada da mulher portuguesa, com as belíssimas vestes minhotas, mas com a sensualidade que as mulheres portuguesas sempre tiveram, mas que antigamente havia pudor em demonstrar.