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ANAQUIM: Um anão com olho de falcão

"A Vida Dos Outros" é o disco de estreia da banda de Coimbra, fundada por José Rebola: interpretação em português, inteligente, bem humorada e repleta de histórias. Já nas lojas.

 

Para quem não conhece, de onde vem este nome, Anaquim?

Para quem não conhece, poderá conhecer um muito parecido, que é o Anaquin, uma personagem da Guerra das Estrelas. O nome surgiu como uma brincadeira que foi levada mais a sério. O Anaquin é o salvador da pátria nos primeiros três episódios da Guerra das Estrelas e transforma-se no vilão... há uma dualidade que eu achei interessante explorar: representa tudo o que há de bom e depois tudo o que há de mau. Acho que todos temos essa dualidade em nós. A mesma substância da pessoa, consoante o que lhes acontece ou a maneira como reagem é que as faz tornar no herói ou no vilão de uma história.

 

Nesse aspecto, neste primeiro trabalho, qual é a faceta que o seu Anaquim toma?

O engraçado da personagem é que ela é uma personagem em branco. A ideia é essa: a personagem é a parte de nós que se questiona e que não se deixa levar por um passado ou uma tradição. Supostamente o Anaquim é um duende com molas nos pés e que anda pelos telhados e que faz o papel de observador e faz as suas crónicas sobre a vida dos outros. Daí o nome do CD. Mas pergunta-se: “Isto é assim porquê? Porque sempre foi assim ou há mesmo uma razão para ser assim?” É esse questionar e averiguar se pode haver uma mudança, “julgar” as coisas sem ter associado o peso de um passado ou de uma tradição. Um olhar fresco sobre a sociedade.

 

As histórias que ouvimos neste disco são pessoais ou são histórias de e sobre outros?

É uma mistura. São coisas que vivo ou vivi e coisas que vejo os outros viver. E acho que ninguém consegue contar uma história sem ter lá um bocadinho do seu ponto de vista. Estas crónicas todas têm um bocadinho de mim enquanto letrista.

 

Como nasceu a banda?

Eu há uns tempos tinha outro grupo, os The Cynicals, mais virado para o punk rock, para o cabaret. Tinha algumas canções guardadas, noutra linguagem musical e também em português, e que ficaram na gaveta. Passado uns tempos comecei a aperceber-me que aquelas ideias já tinham atingido um grau de maturidade que valia a pena mostrar a alguém. E começou por aí. Em Coimbra mostrei ao Nuno Ávila, da Rádio Universidade, que passou os temas ao JP Simões que estava a fazer o programa de bandas “KM Zero”, e formou-se uma pequena bola de neve. Aí convidei amigos que abraçaram de imediato o projecto e foi uma evolução perfeitamente natural.

 

Qual é a mensagem que pretende passar?

É muito simples e em dois planos: o pessoal e o social. Mas em qualquer um deles há um olhar e ver o que gostamos e o que não gostamos . E o que não gostamos, ver como podemos mudar. Num plano pessoal o Anaquim fala dele – ou de mim, pronto! – e num plano social é mais apontar o dedo e perguntar se há possibilidade de fazer as coisas de outra maneira. Não tenta ser uma ordem, nem uma lição de moral: é uma opinião e um ponto de partida para uma conversa.

 

Mas aponta-se o dedo ao quê? Aos políticos?

Não entro tanto no campo da política, primeiro porque é perigosa (risos). Mas acaba por ser um reflexo da sociedade. Quando se faz um retrato da sociedade, retrata-se a política. Mas não tenho ideias políticas completamente abertas.

 

Estar em Coimbra, pela faculdade, pelo ritmo académico, à tradição de pensadores, influência a sua forma de escrever e fazer música?

Bom, académico e pensadores não estão necessariamente ligados (risos). Mas creio que sim, mesmo que não tenha muita noção disso. Temos um meio académico muito forte e muitos desses académicos, sim, são pensadores! E isso acaba por levar a que muitas vezes as conversas de café se tornem em conversas ideológicas sobre muitos temas. E acaba-se por reflectir sobre muitas coisas que se passam à nossa volta.

 

No tema "O meu coração" canta com a Ana Bacalhau, dos Deolinda. São estilos que se cruzam um pouco. Como surgiu a ideia do dueto?

Gosto mesmo muito dos Deolinda, acho um projecto muito original. E uma vez recebi um elogio do Pedro [da Silva Martins]. Aquilo foi um ponto de partida para uma conversa em que sugeri e perguntei à Ana se quereria entrar numa colaboração – ela prontamente disse que sim, porque é super simpática e acessível. Vem daí.

 

É um tema feito a dois?

Será maioritariamente meu, mas a Ana deu um input muito importante.

 

Acha que se pensa e ouve, em Portugal, a música portuguesa de outra forma? Nos últimos temos ouvimos uma série de músicos a cantar e a escrever muito bem em português.

Para já não sou fundamentalista. Não acho que toda a gente deveria cantar em português. Durante uns tempos houve uma seca, mas isso penso que também possa estar ligado à proliferação da tecnologia, de ser mais fácil mostrar as nossas ideias. O arranque é mais fácil. Antigamente – é relativo, claro - ouvíamos o que chegava a nós. Agora ouvimos o que queremos ouvir. Como há mais procura directa, começou a seleccionar-se mais e a ouvir também de outra forma. Há um cruzamento entre a procura e a oferta que favoreceu quem escreve.

 

Como tem sido a reacção das pessoas aos espectáculos?

Temos feito alguns concertos – e temos muitos na calha. Mas habitualmente quem não gosta não vai dizer. Habitualmente quem vem ter comigo gosta. Mas é curioso ver a diferença de pessoas que ouve a nossa música: são pessoas de diferentes estilos e diferentes idades que vêm dar os parabéns. Há uma heterogeneidade muito grande no público, fascinante.

 

Que espectáculos é que estão previstos?

Além das Fnac vai haver um lançamento em Coimbra e outro em Lisboa. E depois vamos andar por auditórios: Guarda, Bragança, Ílhavo, Leiria. O país não é grande, mas queremos andar por todo o lado.

 

Mesmo assim, não é comum ver uma digressão de auditórios de uma banda novata. 

Não, não é. Mas uma coisa que eu acho que é peculiar no projecto é que por ser versátil cabe em muitos espaços. Ou seja, é possível ver um concerto de Anaquim numa queima das fitas, numas festas da cidade, num auditório ou num showcase acústico.

 

A nova tendência da música aponta muito para os novos meios, como a Internet. Qual é a sua opinião sobre isso?

Enquanto artista nós queremos é que a arte chegue ao maior número de pessoas possível. As tecnologias e novos meios de difusão da música vão fazer com que isso seja possível. Qualquer pessoa com um cabo de ligação à Internet pode ter acesso a milhentos projectos musicais. Claro que há a questão da pirataria, mas temos o MySpace que serve para apresentar, para ver se se gosta ou não. Toda a gente sabe que a pirataria acontece, mas isso se calhar também permite que as pessoas ouçam mais e depois, se calhar, vão a mais concertos. Por vezes parece-me que há uma certa relutância de se arriscar e ir ver-se um concerto de uma banda que não se conhece.