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Mão Morta: 25 anos com a veia a pulsar

 

Adolfo Luxúria Canibal, vocalista da banda de Braga, conta ao METRO como estão a comemorar os 25 anos de carreira: Além de um disco novo, a sair em Abril, lançaram uma caixa em que reeditam os primeiros quatro discos.

 

Está a ser um ano muito cheio para os Mão Morta?
Já vem do ano passado, mas sim tem sido muito trabalhoso, sobretudo porque não nos dedicamos cem por cento à música, utilizamo-la como uma actividade de prazer e ganhamos o nosso dia a dia com outras profissões. Quando há muita coisa para fazer e os prazos apertam torna-se um pouco sufocante. Este ano o principal sufoco tem sido a feitura do novo disco. A caixa de reedição é mais um trabalho da editora Cobra e não dos artistas. Era para sair em Setembro e acabou por sair só em Dezembro. Por isso não é tão sufocante.

E os prazos para o novo disco estão a apertar?
Estamos a recuperar bem. Tivemos  um problema grave, que foi uma doença estranha e grave do Miguel Pedro que nos fez perder dois meses. Foram dois meses em sufoco a tentar recuperar a perda de tempo e já estamos nos timings. Agora, até o disco estar pronto, em Abril, o sufoco não pára.

Esse sufoco é bom para um músico?
É bom. Eu conhecendo os Mão Morta há 25 anos [sorri]... e sei que funcionamos melhor quando temos prazos. Quando não temos somos levados a relaxar. “Se não for agora é daqui a um mês. E se não for daqui a um mês é daqui a um ano.” Por exemplo,  o espectáculo do Maldoror era algo que o Miguel Pedro falava há alguns dez anos e só quando nos comprometemos a fazer com o Theatro Circo é que realmente o fizemos.

Acha que isso influência o trabalho final? Ou seja, se está mais relaxado faz música de outra forma, ou simplesmente não faz música?
É mais a segunda hipótese! Se olhar para a história dos Mão Morta, o grosso do trabalho foi feito por solicitações externas, ou seja, nós limitamo-nos a dizer que sim: a partir daí sentimo-nos compelidos e obrigados a cumprir o que dissemos e por isso fazemos as coisas. Se não houvesse essas solicitações provavelmente poderíamos não ter feito tantas coisas.

O novo disco vai chamar-se “Pesadelo Em Peluche”. O que pode adiantar sobre o que estão a criar?
Preferia não avançar grande coisa até porque não está terminado. Posso dizer apenas que partiu do universo do J.G.Ballard , o escritor mais conhecido pela ficção científica,  com canções mais curtas, mais rock and roll, mas não posso adiantar mais.
 

Chegou às lojas a colectânea com os quatro primeiros discos dos Mão Morta. O que representa para si esta caixa?
Para mim o mais importante é disponibilizar os títulos e voltar a tê-los nos escaparates, porque são coisas desaparecidas há mais de dez anos. Por nós até podíamos fazer mais, mas não está nas nossas mãos. Por exemplo, “Vénus em Chamas” pertence à BMG, a edição fonográfica, e também está esgotado há mais de dez anos. Há muita gente que me vem perguntar onde o pode arranjar e vejo preços exorbitantes a serem praticados no mercado em segunda mão. Depois foram discos que foram marcantes, para os Mão Morta e para mim. O primeiro, o homónimo, numa altura em que fazer discos era uma dificuldade enorme. Mas todos os discos têm uma história semelhante: “Corações Felpudos” também nutro um particular carinho, por todas as voltas que demos para o editar – termos ido para estúdio com uma perna às costas, sem preparar nada antes e passado cinco dias saímos com quatro ou cinco instrumentais e fomos trabalhar para casa. Passado três meses é que fomos para estúdio fazer o disco. O “O.D., Rainha do Rock & Crawl” também é um disco com canções-chave dos Mão Morta, mas é um disco de urgência, que fizemos em cinco ou seis dias e que é o nosso primeiro esboço mais ou menos conceptual; e o “Mutantes S.21” é aquele em que chegamos ao fim e dizemos “está tudo na batata, como queríamos e imaginámos”. E pelas consequências que teve na carreira dos Mão Morta, que nos fez sair de um gueto fechado, do underground, e que precisávamos de sair para conseguir sobreviver.

As histórias das músicas dos Mão Morta também se misturam com as histórias de vida do Adolfo?
Não, não têm nada de autobiográfico. Só de uma forma muito, muito longínqua é que se pode encontrar alguma vivência, porque o ponto de partida costumam ser obras literárias, teorias políticas, saindo do campo do quotidiano. Algum disco onde possa haver o peso de alguma vivência é muito encenado, nada tem que ver com real.

E, por exemplo, no caso de um disco como “Mutantes S.21”, tão descritivo?
Obrigou, de facto, a conhecer as cidades. Mas por exemplo, não assisti a nenhum rapto em Istambul, nem nunca ninguém me contou nenhum, são tudo ficções. Ou em Paris: conheço bem aquela zona, os cartazes da rapariga Cléo, que existiam em Paris numa determinada época. Toda aquela área física existe, mas o assassínio baseei-me vagamente num assassínio que tinha havido nos anos 70 de um japonês a uma namorada holandesa. Amesterdão, por exemplo, há coisas verdadeiras como o Big Fun, que é um café, mas a loja da red Light onde há o sexo ao vivo, o jazz melancólico a tocar, é um bar perfeitamente inventado. São invenções verosímeis, com alguma base de referência.

Sentiu alguma vez que os Mão Morta eram uma banda não desejada em Portugal, ao ponto de constituírem a vossa própria editora?
Bom, há sempre as pessoas que gostam e outras que não. É como qualquer artista. Mas não nos sentimos mais apadrinhados ou postos de lado do que qualquer outro artista que tem uma postura de independência. Mas o mercado português é um mercado pequeno, dirigem-se a um nicho pequeno e o facto de termos uma editora permitiu-nos, quando a indústria achava que esse nicho a que os Mão Morta se dirigiam não era suficientemente rentável, fazer edições sem estarmos dependentes de uma vontade económica.

Tem-vos facilitado mais ou menos a vida?
Tem facilitado, porque se calhar nunca teríamos editado o “Nus” se não fosse a Cobra, ou muitas outras coisas que nem sequer passaria pela cabeça editar a uma editora que funciona em termos economicistas. O “Maldoror”, por exemplo.

Os vossos espectáculos, ao longo destes 25 anos, também têm sido impressionantes: ora o rock puro, ora algo mais ligado à dramaturgia, ou “spoken word”, como Maldoror. Sentem-se uma inovação nesse sentido em Portugal?
Não fizemos as coisas para isso, fizemos porque nos apeteceu e sempre pelo desafio que nos colocavam. O que é certo é que olhando para o lado não há ninguém a fazer essas coisas...

No seu caso, o mítico concerto no Rock Rendez Vous, ainda é o concerto que mais o marcou ao fim destes anos todos de Mão Morta?
(risos) Depende do que chama marcar! De marcas físicas, efectivamente foi! Psicologicamente não. Não foi nada de relevante a não ser a questão da faca na perna, mas nem foi o único em que utilizei a faca. Esse teve foi consequências físicas, mas não era nada excepcional na época. Mas há concertos bem melhores que me deixam bem mais satisfeitos. Por exemplo, o famoso concerto da destruição do Theatro Circo, em 1993, traz-me muito mais recordações: foi grandioso em todos os níveis, porque marcou a relação dos Mão Morta com a cidade. Éramos um bocado os patinhos feitos e tornámo-nos a banda da cidade.