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Jornal Metro

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Panda Bear: Um americano alfacinha

 

Noah, podemos fazer a entrevista em português?
Em português vai ser difícil! Acho que não consigo. Só consigo dizer as coisas mais básicas: pedir em restaurantes e tretas simples dessas.

Mas está a pensar em aprender português?

Sim, até tenho vergonha de estar cá há seis anos e ainda não conseguir falar português. Mas foi uma das minhas resoluções de ano novo, finalmente aprender. Dois dos meus sonhos, quando vim para cá, foi aprender a conduzir um carro com mudanças manuais; e o outro era aprender a língua. Já aprendi a guiar. A última barreira é a língua.

Se calhar, aqui em Lisboa, é mais difícil aprender a conduzir, não?
Sim, especialmente no sítio onde eu vivia, no Bairro Alto, onde as colinas são íngremes e as ruas estreitas. Mas safei-me.

Está a gravar um novo disco. Lisboa tem-no inspirado?
Sim, claro. Sinto que o ambiente influencia-nos de várias formas, mas é difícil dizer como. Apesar de haver muito sol por aqui, não acho que este disco seja tão solarengo. Mas tenho certeza que a cidade e o ambiente arranjam forma de se misturar na música.

E também se inspira pela música portuguesa?

Eu não sou versado em música portuguesa, mas acho o fado inspirador, por ser tão dramático, emocional e romântico, a meu ver. Acho que foi uma inspiração para as minhas novas canções, sem dúvida.

É por isso que diz que não é um álbum tão “solarengo”?
Sim, é um bocadinho mais sério, como o fado. Tenho a certeza que se ouvires as canções não vais encontrar nada de fado nos temas. Mas acho que, de alguma forma, ele está lá.

O álbum vai chamar-se "Tomboy". Porquê?
Pensei em muitas coisas e acho que todas as canções se centram no tema de ser duas coisas ao mesmo tempo, ou ser algo que não somos, ou possuirmos emoções que entram em conflito connosco. A definição de Tom Boy é uma rapariga que exibe qualidades de rapaz: é dura, gosta de desportos, esse tipo de coisas. Acho que lhe chamam “menina-rapaz”.

Sim, mas dizemos maria-rapaz. “Mary-boy!”
Ah, sim sim! Desculpa! "Mary-boy"! (risos)

Nestes dois concertos do Lux, do fim-de-semana, já vai mostrar novas canções?
Sim, acho que nove de dez canções já vão ser do “Tomboy”.

Vai ser a apresentação do disco aqui em Lisboa.
Mais ou menos. Acho que as músicas ainda vão mudar à medida que eu as vá gravando, mas sim, será a apresentação do disco, de certa forma.

Está a gravar cá o disco?
Sim, devo começar mesmo a gravar na próxima semana. Mas é no meu estúdio, sozinho. Não é nada de especial!

O sítio em que vai tocar, o Lux, é um sítio que gosta de ir com frequência? O que é que gosta de fazer por aqui?
Gosto muito, mas só lá fui umas quatro ou cinco vezes. Mas não saio muito, sabes? Gosto de sítios tranquilos. Os parques ao pé de minha casa. E toda a Baixa de Lisboa, também gosto muito.

E consegue ter sossego, no Bairro Alto?
Mudámo-nos, há uns três ou quatro meses. Agora estou numa zona mais tranquila. Mas ainda trabalho lá no Bairro Alto.

Demorou muito tempo a habituar-se à cidade?
Nem por isso, mas acho que é porque sempre andei a saltitar de um lado para o outro. Nunca fiquei mais do que quatro ou cinco anos num só sítio, desde os meus 14 anos, quando saí de Baltimore. Aprender a sentir-me confortável num sítio é algo que faço rapidamente. Diria que, ao fim de dois anos, quando comecei a aterrar em Portugal, já me sentia em casa.

Mas não foi difícil sair de Nova Iorque, uma cidade com oito milhões de pessoas, passar para uma cidade com menos de um milhão?
Bem, já estava em Nova Iorque há cinco anos e estava pronto para sair de lá. Vir para uma grande cidade que, em muitos aspectos, era o oposto, era precisamente o que eu estava à procura. Não foi difícil. Até posso dizer que não há muitas coisas que eu sinta falta de Nova Iorque.

Além do amor e da família, o que é que o convenceu a ficar por cá?
Acho que a velocidade da vida aqui. Faz-me muito sentido, é muito mais lenta que num sítio como Nova Iorque. Sinto-me em paz por aqui.

E é fácil para si trabalhar com os Animal Collective a partir de Lisboa?
Requer muita comunicação via e-mail. Mas estamos sempre em contacto, a dizer o que queremos e o que estamos a fazer. Há muitos emails a serem trocados.

Mesmo com essa distância toda, conseguiram fazer um dos melhores discos de 2009.
Mesmo estando separados, o verdadeiro trabalho faz-se quando estamos juntos, quando voamos até aos EUA e passamos uma série de tempo em conjunto a trabalhar nas canções.

Como é que foi para si saber que o "Merriweather Post Pavilion" foi um dos discos do ano?
Foi óptimo, claro. Mas é perigoso receber tantas reacções a um trabalho, sejam positivas ou negativas. Qualquer coisa que comece a afectar aquilo que sentes pelo que fazes pode ser perigoso. É bom saber que as pessoas gostam, mas além disso não quero saber de mais nada.

Já começaram a pensar noutro disco?
Não, estamos a ir devagar. Estamos a fazer as nossas coisas. Fizemos o filme, que apresentámos em Sundance, e há outros projectos que acho que ainda vamos mostrar antes de um outro disco “a sério” dos Animal Collective.