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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Entrevista com Os Pontos Negros

 

 

 

O METRO falou com Jónatas Pires e com Filipe Sousa, os dois guitarristas e vocalistas d'Os Pontos Negros. A banda tem um álbum novo, chamado "Pequeno-Almoço Continental", onde nos servem rock and roll português, fresquinho para o tempo quente que aí vem. Por entre guitarras e teclados, os rapazes de Queluz - que começaram a banda na cave da igreja Baptista de Queluz - estão mais maduros e falam-nos agora de sentimentos: "Não podemos estar uma vida toda a fazer músicas sobre histórias inventadas ou coisas fúteis." Aqui fica a conversa completa que serviu de base para a peça publicada no jornal de hoje.

 

Este "Pequeno-Almoço Continental" já é material com mais utilidade?
JP – Não sei... é totalmente diferente do outro. O próprio conceito, tanto em termos de som como de estética. O que havia no "Magnífico Material Inútil" era um disco linear, muito compacto, com canções com a mesma produção e som do início ao fim. O artwork era também muito simples, quase "do it yourself". Aqui é uma coisa mais elaborada, tanto em termos de som como de grafismo. Não que achemos que o outro disco deixou de ser válido, mas este representa aquilo que a banda é agora. Mantêm-se algumas coisas, claro, que são os nossos traços característicos, mas é um passo em frente, para tentarmos ultrapassar os nossos limites.

Em que é que sentem que cresceram?
FS – Não sei se crescemos. Acho que acima de tudo estamos é mais confortáveis a tocar uns com os outros. É uma aprendizagem que se vai fazendo de disco para disco e acho que perdemos um certo medo de experimentar coisas novas. Há coisas que mudaram, mas não comprometem a essência da banda.

Nota-se mais o trabalho do Silas [Ferreira] nas teclas.


JP – É propositado! Achámos – nós e o Jorge Cruz, que produziu – que o Silas estava a ser sub-aproveitado.
FS – O Silas não, os órgãos!
JP – E o Silas também. Aliás, ele aqui até já toca mais sintetizadores. Tivemos a oportunidade de gravar com um Hammond B3 e com um amplificador Leslie, um Minimoog e mais uns sintetizadores. Às tantas já nem se via o Silas, era só trocar as mãos! Quisemos mesmo que o Silas sobressaísse, mas acho que as canções continuam a viver muito daquilo que as guitarras fazem. Agora o Silas assumindo um papel mais preponderante também dá mais espaço e liberdade para as guitarras fazerem outra coisa, além de segurarem per se as canções. É claramente uma aposta ganha e muito do som do disco deve-se também ao Silas que esteve com o Jorge a fazer as misturas.

Como é que estas canções começaram a nascer?
FS – Houve ali um momento em que os concertos acabaram, houve uma pausa, e foi aí que começámos – fizemos duas ou três feitas. Em Janeiro e Fevereiro acabámos por fazer o resto. Foi um processo simples.
JP – As minhas canções – e como temos dez, no total, dá cinco a cada um – as minhas canções são o meu 2009, posto em disco. Nesse sentido acaba por ser mais um disco pessoal do que o anterior, que vivia muito de narrativas inventadas, histórias escritas que não transpareciam a realidade. Não é confessional, mas é quase como curar as feridas, tirando-as do corpo e pondo-as no disco. Para mim é um bocado isso. Acho que uma das coisas que acho que conseguimos com este disco – e como estamos a falar de coisas que nos são caras... – acho que o sentimento consegue passar cá para fora. O mais importante é que as pessoas quando ouvem as canções que as entendam, mas também que possa ser algo mais visceral, já que a música também deve interferir com o teu corpo e fazer ter reacções que não são muito pensadas. Por isso é que se bate o pé e se dança e não se dá conta.

É mais uma mostra do amadurecimento da banda, o facto de mostrarem mais o sentimento?
FS – O ser mais sincero? Eu acho que isso faz parte da evolução natural de uma banda. Não podemos estar uma vida toda a fazer músicas sobre histórias inventadas ou coisas fúteis. Às vezes sentimos a necessidade de mandar o que está dentro cá para fora. Nesse nível sim, é mais sincero. Acho que mostra amadurecimento, sim, porque deixamos de estar preocupados com aquilo que as pessoas vão pensar e queremos escrever o que sentimos. Não estamos presos àquilo que as pessoas vão pensar.
JP – Sim, tentando sempre não fazer, de uma forma que seja básica e simplista. Já chega a quantidade de música que as pessoas ouvem que não os obriga a pensar. O disco é curto e rápido, mas não é tipo fast-food, de digestão fácil. Claro que escrever canções de amor e que falem de felicidade é muito difícil como faz, por exemplo, o Stevie Wonder. Nas palavras de outra pessoa soa a piroso, mas como é o Stevie Wonder, soa bem. É tentar dizer as coisas de forma a que as pessoas, intelectualmente, se sintam confusas e desafiadas. Por exemplo, o single, "Rei Bã", tem como refrão: “Morte ao meu sorriso”. E há pessoas que ficam confusas e não percebem porquê.
FS – Gostamos de escrever coisas de forma mais subjectiva para as pessoas ficarem a pensar. É um disco que pede mais atenção às pessoas.
JP – A partir do momento em que um artista é compreendido por toda a gente, deixa de ter interesse.

E torna os álbuns de consumo mais imediato. Mas, Jónatas, afinal o que acontecia se o Variações fosse teu barbeiro [faixa 6]?
JP – Essa música para mim é o enterrar do caixão do Variações. Já não vou escrever mais sobre ele, mas basicamente é o meu epitáfio para ele: o sujeito da canção é a música portuguesa. Ou seja, se o Variações continuasse a ser o barbeiro da música portuguesa, o seu aspecto seria muito mais aprazível. Quem ouve aquilo por ouvir pode pensar que o que eu queria era que o Variações me cortasse o cabelo.
FS – Também pode ser interpretado assim!
JP – Sim, não é vergonha nenhuma, mas esse não é o verdadeiro sentido da canção.

 

 


Nestes dois últimos anos a vossa vida mudou muito?
FS – Em Lisboa as pessoas são um bocado acanhadas, saímos à rua com a mesma normalidade. Não mudou quase nada. O que mudou foi a agenda, temos de conciliar o tempo útil da semana entre concertos e viagens e passamos mais tempo fora de casa.

Foram dois anos de mais rock and roll e tudo o que isso implica... concertos, festas e bastidores... Foram também dois anos mais pecaminosos?
JP – (Risos)
FS – Para nós são todos os dias! Não estamos livres disso.
JP – Nada disso, foram dois anos de muito divertimento e companheirismo.
FS – Temos noção que são os melhores anos da nossa vida por isso é aproveitar ao máximo, com responsabilidade. Mas não há sentimentos de culpa!

A co-produção do disco é do Jorge Cruz. Foi muito diferente de trabalhar com o Tiago Guillul? Desta vez também foram para o Norte do país gravar, nos Boom Studios.
JP – Todas as circunstâncias que moldam o "Pequeno Almoço Continental" têm que ver com o facto de termos saído de Lisboa e passado dez dias em Espinho, a termos que fazer a viagem todos os dias pela costa, o facto de estarmos só nós com o Jorge e concentrados no trabalho. No outro disco, acabávamos de gravar e íamos para casa, ter com a família... era como um dia de trabalho. Ali foi quase como ir para o estrangeiro! Mas não se pode comparar em termos quantitativos a diferença com o Tiago, com quem adorámos trabalhar. O Jorge tem uma forma diferente de trabalhar do Tiago.

 

 

 

 

Entrevista com Expensive Soul

 

Neste “Utopia” os Expensive Soul parecem ter crescido um pouco mais, assumiram o funk, a soul e o hip hop como linhas orientadoras e talvez tenham deixado um pouco para trás as músicas com travo a reggae. É assim?
Max – Nós tínhamos era os singles com um som mais reggae. Tivemos uma música reggae em cada um dos discos. Calhou serem os singles e parece que ficámos neste registo. Mas temos outros sons e ficámos ligados. Agora neste disco já não fazia sentido.

Como é que houve a decisão de dirigir a música para esse caminho mais específico?


Max – Fomos crescendo com isto até encontrarmos o caminho em que nos sentimos realmente bem. Começámos com 16 ou 17 anos e na altura fomos até ao R&B, ao “Dr. Dres”, Timbalands, mas começámos a ouvir outras coisas e hoje em dia já são coisas ainda mais diferentes. As nossas influências acabam por estar lá, o nosso sexto sentido também. Hoje em dia também já compramos muito vinil dos anos 60 e 70 e para este disco houve essa pesquisa, de como se gravava na altura e que tipo de material se usava.
Demo – E mesmo a nossa direcção também mudou um bocadinho. Sabes quando estás a ouvir música e já nada te bate daquela forma que te inspira, que te faz mexer e curtir. Ainda não tínhamos encontrado aquilo que queríamos fazer.
Max – Sempre foi uma salada de frutas, porque era hip hop, era soul, era funk, era reggae. Era tudo! E faltava-nos definir-nos um bocadinho. Tem a ver com a maturidade: nós crescemos, estamos mais velhos – em todos os aspectos e o disco também transparece isso um bocadinho.

Acaba por ser o resultado da consolidação da vossa ideia relativamente à música.
Max – Sim. Acredito que o próximo disco já será mais nesta linha. Podemos experimentar outras coisas, mas acho que já encontrámos o nosso caminho.

Este “Utopia” também vem um pouco na sequência do seu disco a solo, Max, o “Phalasolo”, que também era muito nesta linha. Este tem mais a vertente hip hop. E o Max dizia que eram canções que não eram muito viradas para o que os Expensive Soul faziam.
Max – Na altura eu já ouvia mais isto e se calhar o Demo não. Agora estamos mais em sintonia.
Demo – Completamente. Eu, principalmente, estava a passar uma fase complicada porque não gostava de nada do que ouvia. É incrível porque voltei tudo atrás – são coisas que já se fizeram – e encontrei aquilo que sinto. Apesar de achar que “Phalasolo” tem um registo e os Expensive têm outro.
Max – Sim, é mais instrumental. Aqui é mais o formato canção.

Nota-se mais o trabalho de equipa.
Demo – Sim. Este para já tem logo os raps, as dicas, os beats.
Max – O “Phalasolo”, para mim, foi uma aprendizagem para poder chegar aqui. Mesmo a nível de produção, por exemplo.

E para si, Demo, o “Phalasolo” também foi importante ou o gosto pela música soul e funk já vem de mais de trás?
Demo – Sem dúvida que é um disco de influência. É um grande disco, muito bem conseguido para qualquer músico, mesmo que não goste do estilo. É bem tocado, bem gravado, boas músicas, boas letras. Quando eu e o Max falámos quisemos transpor um bocado disso para Expensive, que achávamos que precisava disso.

Como foi fazer a passagem dessa concepção da música para um disco? Foi complicado?
Max – Foi natural. Muito por culpa do sexto sentido. Ouvimos muita coisa que vai ficando cá dentro. A ideia deste disco – e que foi o mais difícil – foi juntar uma sonoridade mais antiga aos beats de 2010. E acho que essa mistura foi bem concebida.

É uma coisa que salta muito ao ouvido: é um disco com um som velho. Vem da produção ou dos instrumentos?

Max – É das duas. E também da captação. Os órgãos Hammond podiam ter sido gravados directamente, mas optei por usar antes amplificadores e distorção. Também fiz isso nos baixos, os microfones usados foram os “ribbon”, de fita, antigos.
Demo – Depois acho que há outra coisa: se ouvirmos os discos dessa época, Marvin Gaye ou outros da Motown, são discos muito quentes! É tudo gravado em mesa de válvulas e fita. Hoje os discos são muito clean, limpinhos, brilhantes. Quisemos um meio-termo. Essa produção é obra do Max e foi muito bem conseguido. Acho que é um disco que dá para viajar muito mais do que os outros.
Max – É um disco que é capaz de agradar ao pessoal que gosta das coisas mais comerciais, como o single “O Amor é Mágico”, mas também há outras como “Game Over”, mais underground e alternativo.

Os sopros são também uma novidade nos Expensive Soul.
Max – Já tínhamos feito alguma coisa, mas neste disco está mais presente.
Demo – E fazia sentido, porque o registo deste disco vira-se mais para este tipo de som, para o uso de metais.
Max – Também já sabíamos que queríamos trabalhar com eles ao vivo e então pusemo-los logo em disco. Agora tocam em todas e mesmo aquelas em que não tocavam, nos discos anteriores, fizeram arranjos.
Demo – E para nós é uma combinação perfeita: temos tudo a ser tocado ao vivo em palco, é uma combinação muito mais orgânica.

E ao vivo, como vai ser passar essa sujidade toda para o vivo?
Max – Já o fizemos, mas tivemos de aumentar a banda. Agora este disco já foi pensado para ser mais fácil transpor para o vivo. Temos muitos ensaios, mas está a soar bem.
Demo – O importante são as dinâmicas – e que este disco pede muito mais.
Max – Às vezes há quatro teclados em simultâneo e isso é complicado!
Demo – E tem corrido optimamente bem! Principalmente para mim, que estive este tempo parado. Estava com fome disto, das pessoas a cantarem as nossas músicas.

O Max fez o “Phalasolo”, nesta paragem dos Expensive Soul. E o Demo, fez alguma coisa ligada à música?
Demo – Eu conciliei com a minha vida de DJ...
Max – Eu perdi dinheiro, ele ganhou! (risos)
Demo – Eu andei a ouvir muita coisa, a sacar muita informação. Mas sempre a par das coisas. O “Phalasolo” é como se fosse meu. E mais, ainda o álbum do Max não estava feito e já havia canções para Expensive.

Só mais duas curiosidades: como é que o Max, com uma voz tão grave, canta agudos desta forma?
Max – Pois, é estranho.... (ri-se)
Demo – É como o James Brown, também ninguém o percebe!

E outra: o “Phalasolo”, o seu disco a solo, foi um disco gratuito, de download na Internet. Acabou por perder dinheiro, não é?
Max – A minha ideia era fazer muitos concerto e isso não aconteceu. Só dei dois... E 2009 foi um ano muito mau. Só algumas bandas é que fizeram concertos e passou-nos ao lado. Mas eu cheguei às pessoas que queria chegar. Mas fiquei com pena de não ter tocado mais porque preparei tudo para ficar muito porreiro ao vivo, com uma banda do carago!
Demo – Mas este ano já está melhor, acho que as pessoas já se começaram a organizar.

Pensa em voltar a repetir essa experiência?
Max – Por exemplo, se fizer um seguimento de “Phalasolo” talvez faça a mesma coisa!  Porque a solução não está em vender discos. Mas percebo que quem gosta de música queira ficar com uma recordação. Lembro-me que havia muitas pessoas que queriam mesmo comprar o disco.
Demo – Chegámos a ponderar em lançar este “Utopia” apenas em vinil. Vamos editar uma edição especial em breve. Antes prefiro mil vezes ouvir um vinil. Quem quer música digital tem o iPod.

 

Entrevista com Grizzly Bear

 

 

 

Ed Droste é o vocalista e guitarrista dos Grizzly Bear. A banda vai estrear-se em Portugal na próxima semana, nos dias 26 de Maio no Coliseu de Lisboa e no dia 27 no Coliseu do Porto. O METRO falou com o músico - que mora actualmente em Brooklyn, Nova Iorque - e aqui fica a conversa que deu origem ao artigo que foi hoje publicado no jornal.

 

Esta vai ser a vossa primeira vez em Portugal. Tem algumas expectativas?
Ouvi de alguns amigos que Portugal é um muito divertido para se tocar, que o público é bem louco e barulhento. Vamos ver se as condições permitem um concerto porreiro, não sei se vai ser com cadeiras para se sentarem, ou não, e criar as condições de festa que os meus amigos me falaram.

Mas tem amigos em Portugal?
Tenho amigos que já tocaram em Portugal e me disseram isso.

Como tem corrido a digressão deste disco, "Veckatimest"? Já são muitos meses na estrada. Estão cansados?
Sim, tem sido um ano muito longo, mas neste momento estamos numa boa altura porque não é digressão constante. Tocamos aqui e acolá, dá para ter algumas semanas de férias entre concertos. O próximo é mesmo aí com vocês, em Lisboa e no Porto. Depois seguimos para o Primavera Sounds, em Espanha, e paramos outra vez. Depois Glastonury... o ano passado, no Outono, posso dizer que foi a digressão mais longa que já fiz: dez semanas, todas as noites um concerto. Eu não te vou mentir, cheguei ao fim dessas dez semanas e sentia-me muito cansado!

Então é uma boa altura do ano para vocês. Dá para ter férias. Nessas alturas aproveita para descansar ou não consegue largar a música?
Há algum descanso... tenho um cão para passear, vejo os amigos que deixo de ver durante muito tempo, a família... digamos que aproveito para me chegar junto das pessoas que deixamos de ver. Quando o primeiro disco sai, os primeiros seis a oito meses são longe de tudo. Quando voltamos: “Ah, tens um bebé”, ou “ah,vais-te casar!”. É um período para compensar o tempo perdido. E claro, vai-se sempre tentando fazer alguma música, mas aproveitar o bairro onde moramos. Gosto muito de cozinhar... bom sou muito doméstico.

E o Ed vive em Brooklyn, não é? O que é que se passa neste momento à volta dessa zona de Nova Iorque? Há um hype enorme e tantas bandas porquê?

Eu nasci em Massachussets, mas acho que aqui há um enorme apetite por música ao vivo, como resultado, há muitos sites e revistas. As hipóteses de alguém escrever sobre o teu concerto aqui em Brooklyn ou Nova Iorque são muito maiores do que se estiveres no Kansas, por exemplo. Ou até mesmo São Francisco. É o centro da música de hoje em dia, sobretudo Nova Iorque. Há muitas bandas que não são necessariamente de Brooklyn, que se mudam para cá e começam a fazer música. E depois há muitos bons sítios para tocar: grandes e pequenos. Dá para tudo!

É um movimento semelhante ao do grunge, em Seattle, de há 20 anos, mas com outra música: o movimento indie?
A questão é que há muitos, muitos tipos de música. Não é só o indie. E acho que é mesmo Nova Iorque. Há muitos artistas que dizem que são de Brooklyn, mas vivem em Manhattan. Não sei se vai durar muito, mas espero que sim, porque é óptimo viver aqui e descobrir novos artistas.

Ficaram surpreendidos com a recepção e o sucesso de “Veckatimest”?
Muito surpreendidos. Não esperávamos nada disto, mas são sempre coisas inesperadas, sobretudo na indústria da música. Não sabemos o que é as pessoas vão gostar ou durante quanto tempo é que vão gostar de algo. Para nós a grande novidade foi mesmo a Europa. O primeiro disco, “Yellow House”, não foi nada de especial, mas tínhamos o nosso público nos EUA e no Canadá. Foi como se tivéssemos estabelecido uma ideia de quem queríamos atingir. Só que com “Veckatimest”, na Europa, passámos do nível zero para... eu sei lá! As salas muito cheias e muito maiores do que aquelas onde já tínhamos tocado. Mas é tudo incerto, se calhar daqui a dois anos vamos ter 80 pessoas num concerto aí em Portugal, que sabe! (risos) Lisboa vai ser um concerto grande, mas acho que o Porto vai ser um concerto pequenino.

No Porto? Acha que vai ser mais pequeno?
Não faço ideia, mas eu já estive no Porto de visita e pareceu-me uma cidade pequenina. Mas se calhar tem uma grande cena musical por lá e eu não sei. Se calhar vamos ser surpreendidos, espero que sim!

Então já esteve em Portugal?
Sim, uma vez de férias, em 2000.

Apesar de tudo, a que acha que se deve o sucesso deste disco?
Eu nem diria que é um sucesso assim tão grande! Quer dizer, está a correr bem, mas não é uma explosão como Franz Ferdinand ou Arctic Monkeys. Não nos vão ouvir na rádio, nem nada.

Na rádio não, mas chegámos a ver-vos e a ouvir-vos num anúncio, na televisão. Acha que ajudou à fama?
Bem, não sei. O anúncio foi muito tempo depois do disco sair... Talvez na Europa tenha ajudado a ganhar alguma exposição. Para bandas do nosso tamanho são coisas que podem ser muito boa!

A verdade é que as pessoas hoje ouvem música de uma forma muito diferente.
É daquelas conversas que dá pano para mangas! Eu dou muito crédito à Internet. Acredito que sem blogs, sem revistas online os grandes media, como a televisão, não tinham chegado a nós. Por isso, em muitos aspectos, acho que a partilha de ficheiros e de discos é – frustrante, sim – mas a longo prazo a excitação da música é mais importante do que as perdas de dinheiro. É isso que faz as pessoas ir aos concertos. Mas sim, é verdade, as pessoas ouvem de forma diferente. Por exemplo, no iTunes compram-se as músicas e não os discos. Existe uma dissociação dos álbuns que pode ser muito frustrante. Mas por mim tudo bem, se uma pessoa gosta só de uma canção... é com eles, não conseguimos agradar a todas as pessoas.

Falando também do futuro dos Grizzly Bear. Já pensam noutro disco?
Temos qualquer coisa na cabeça, mas para nós é muito difícil escrever enquanto estamos em tournée. Preocupamo-nos muito e despendemos muita energia para fazer um bom espectáculo ao vivo e depois há os jet lag e tudo mais. É difícil concentrarmo-nos assim... Nós fazemos um disco quando decidimos parar, sair da cidade e recolhermo-nos todos juntos. Talvez este Outono comecemos a trabalhar em algo mais.

Mas sentem alguma pressão, depois de terem feito um disco que foi considerado dos melhores de 2009?
Sentimos sempre, um bocadinho. Mas a única coisa que podemos fazer é não deixar que dite aquilo que fazemos e tentar fazer música em que todos nós acreditemos. Sempre que essa pressão aparecer temos de pensar: “Será que eu gosto disso?”.  Não podem ser os outros a moldar o nosso julgamento.

 

 


Uma curiosidade, Ed: o Jay-Z diz que bandas como os Grizzly Bear ajudam o hip hop a ir mais longe. O que acha disso?
Eu fiquei muito honrado por o Jay Z ter vindo ao nosso concerto. Eu sou um grande fã de hip hop. Mas em relação a isso acho que ele quis dizer que há uma certa complacência e estagnação – porque continuam a apostar nas mesmas fórmulas, como samplar uma canção. Acho que quis dizer que como há tanta banda boa a explorar e a testar música, talvez seja altura de o hip hop fazer uma introspecção e ver como é que se pode reinventar as fórmulas.

 

 


E só então para terminar: o que podemos esperar dos concertos nos Coliseus?
É muito diferente do disco, mais bombástico, mais propulsivo. Acho que as pessoas vão ficar surpreendidas ao ver como a bateria é um elemento chave. E estou muito contente por podermos levar as nossas luzes todas, que eu adoro: são uma espécie de frascos com pirilampos lá dentro.

 

 

 

Klepht apresentam novo álbum

"Hipocondria" Este é o nome do novo álbum dos Klepht. O projecto era "ambicioso", queriam gravar nos EUA. Queriam e gravaram, mesmo depois de um "não" da editora, os cinco rapazes seguiram em frente. Foram ao encontro da produtora Sylvia Massy, que já gravou com mais de vinte bandas internacionais, entre elas os Foo Fighters. E assim nasceu este trabalho que apresentam hoje, no Hard Rock, em Lisboa, às 22h.

 

 

 

Créditos: João Nogueira

 

O que quer dizer este “Hipocondria?

Diogo Dias - Estivemos mês e meio no meio do nada a gravar. E é complicado quando estamos a gravar um álbum, estar sempre a bater nas mesmas músicas, às tantas já duvidamos de tudo, já começamos a desesperar uns com os outros. É um processo complicado, o de gravação de um álbum. “Hipocondria” é um estado de espírito em que a pessoa pensa que tem uma doença mas na realidade não tem. O estar em estúdio às tantas julgamo-nos doentes porque não conseguimos concluir uma música, até a acharmos perfeita, e nunca está perfeita. Até termos o álbum na mão e o lançarmos. É um processo em que pensamos que estamos doentes e às tantas arranjamos a cura que é fazer o álbum. Além disto tudo, é um tema totalmente actual, tínhamos vindo do verão da Gripe A e a nossa sociedade é hipocondríaca, ultimamente temos visto vários artigos a falar de hipocondria. O importante é que “hipocondria” é neste contexto uma coisa positiva, o ultrapassar dos medos que todas as pessoas têm e que também tivemos no processo de gravação.

 

Este é um álbum mais maduro?

Mário Sousa - Esperamos e acreditamos que está mais maduro e que procurámos coisas novas, instrumentos novos, sonoridades novas, sem perder a essência do som dos Klepht.

D.D. - E todo o processo de irmos para os EUA, gravar com uma produtora de nível internacional, a Sylvia Massy, que já tinha trabalhado com os Foo Fighters e outros,  acho que isso nos deu para crescer em estúdio. Estarmos um mês e meio fechados em estúdio deu para trabalharmos mais as músicas, exaustivamente. Se o primeiro álbum foi composto em cinco anos, este foi em poucos meses. É mais coeso, mais maduro.

 

 

 

 

 

Pegando na vossa estadia nos EUA e no facto da vossa editora ter recusado o projecto, como é que isso aconteceu?

Filipe Contente – Sabemos que fomos com uma proposta um pouco fora do normal e exigente. Era o rumo que queríamos para nós. Era o projecto certo. A banda precisava de uma nova experiência, aprender com pessoas que vissem a música de uma forma diferente. Só o facto estarmos nos EUA e a trabalhar com uma produtora que já ganhou dois Grammy, que trabalhou com 20 bandas de topo mundial, isso é um desafio muito grande. A editora não concordou, não quis avançar com o projecto, era caro e demasiado ambicioso. É um projecto que assumimos que não é normal para uma banda que só tem um álbum. É uma loucura. Talvez no décimo álbum... É claro que uma editora dá sempre jeito, mas sentimos que o mercado da música está a mudar e que havia espaço para fazermos uma edição de autor, 100 por cento independente.

 

O que procuraram na viagem aos EUA e o que encontraram?

F.C. - Acima de tudo uma motivação extra, uma nova forma de trabalhar, um profissionalismo muito diferente de cá, trabalhar sempre com prazer e dedicação, e queríamos sentir isso. A Sylvia acreditava mesmo que este álbum, estas músicas tinham valor. O que tivemos? Tivemos isso mesmo. E trouxemos uma ligação com as pessoas de lá. É difícil a música portuguesa entrar lá, mas se um dia quisermos lá entrar será mais fácil. A outra parte foi a parte da loucura. Foi uma experiência rock and roll, curtimos à grande lá.

D.D. - E tornámo-nos campeões do bowling. Só havia um sítio para nos divertirmos à noite. Saíamos do estúdio e íamos para lá.

F.C. - Weed é uma vila muito pequena. O que permitiu que nos concentrássemos no que estávamos a fazer. Se fosse cá era sempre diferente.

 

A musica “Calma” tem a ver com a banda? Como nasceu?

D.D. - A história da calma é o começar de novo. É a hipocondria que se estava a instalar naquela casa. Os prazos limitados, a escrever, a compor, fazer arranjos finais, muita pressão, muito stress e era preciso ter calma. A própria sonoridade transmite calma. Fala do estarmos de volta, do agradecer a todos os que nos acompanharam no 1º álbum e do cumprir um sonho. Que era o que queríamos com este álbum. Desde sempre sonhámos gravar um álbum nos EUA com uma produtora de renome. É um brinde à banda.

 

 

Um site, o MySpace, o facebook... são ferramentas essenciais hoje em dia?

F.C. - É a que utilizamos mais no contacto do dia-a-dia, para a comunicação rápida. Temos o feedback rápido de um tema. Há uma história surreal, recebemos um dia um e-mail de uma pessoa que ouviu o “Embora doa” na rádio, e que chegou a casa e decidiu doar 1500 euros à Unicef, porque a música lhe tocou. Essas são as coisas que achamos que têm mais valor.

 

De que falam estas músicas?

D.D. - São desabafos temporais, o que estás a viver no momento. O outro álbum demorou cinco anos a ser feito. Estas músicas foram escritas em cerca de 3 meses. Talvez esteja mais uniformizado. Fala da banda, de relações, amizade e amor, fala de paixões, a nossa paixão pela música, das dúvidas, dos medos, da hipocondria e fala da cura para isto tudo. O porreiro das letras é conseguires atingir as pessoas e a intenção que dei quando escrevi certas palavras para ti não têm o mesmo sentido, é a pessoa ter liberdade para dar a interpretação que quiser. E isso também nos dá gozo.

 

A gravar nos EUA, não pensar fazer músicas em inglês?

M.S. - A produtora fez força para que voltássemos lá e regravássemos alguns temas sem inglês. É uma ideia que ficou no ar.

 

Klepht significa guerrilheiros gregos. Qual a vossa luta?

F.C. - O nome foi dado antes de Portugal perder com a Grécia... (risos), depois já não deu para mudar.

D.D. - A nossa luta é essa mesmo. Dez anos a tocar sem ter um álbum. Uma banda que só toca originais manter-se durante dez anos junta... Normalmente as bandas comemoram dez anos... E depois é esta batalha toda de ires às editoras. Era necessário o espírito de guerreiro para nos mantermos vivos, ao longo deste tempo todo. É uma luta pelo nosso sonho que é a música.