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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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Homem fica sem um dedo por causa do iPad

O acontecimento insólito aconteceu no Colorado, Estados Unidos. Bill Jordan dirigiu-se à loja da Apple para comprar um iPad. À saída, foi assaltado por um indivíduo que lhe roubou o aparelho e puxou o saco com tanta força que causou danos irreparáveis no dedo mindinho da mão esquerda de Bill. A amputação foi a única solução.

Sonic Youth, a ternura dos 30

Foto de Sage Ranaldo, filho de Lee

 

Lee Ranaldo, guitarrista e fundador dos Sonic Youth, em entrevista ao METRO. Lee toca hoje, quarta-feira, na Galeria ZDB, com Rafael Toral (€10] e amanhã, quinta, e depois, sexta-feira, nos Coliseus de Lisboa e Porto, respectivamente. Os Sonic Youth celebram, em 2011, 30 anos de carreira.

 

O que vai tocar no concerto com o Rafel Toral?
Vai ser um concerto entre aquilo que eu costumo tocar, mais o que o Rafael toca. Nós partilhamos muito os mesmos interesses na música e trabalhámos juntos algumas vezes, entre amigos e colaborações. Acho que é, basicamente, um encontro de improvisos. O Rafael vai tocar um par de gongos e eu vou tocar a guitarra eléctrica. Vamos ver o que acontece.

Este espectáculo tem que ver com aquilo que costuma fazer a solo, de experiências sonoras, com guitarras penduradas no tecto, ou aquilo que fez com o projecto Text Of Light?
Até certo ponto será algo desse género. Tenho estado a experimentar a guitarra pendurada no tecto, através de cabos. Os Text Of Light é outra abordagem, mas também é um grupo de improviso, entre pessoas que partilham o mesmo vocabulário musical. Mas neste concerto com o Rafael acho que vai haver um certo aspecto meditativo. Vamos trabalhar entre os gongos e as guitarras.

Já alguma vez experimentou fazer isto com o Rafael?
Com o Rafael não. Mas já fiz algo similar com outra pessoa a tocar gongos, há uns dez anos. Mas tenho certeza que o Rafael tem qualquer coisa de especial para mostrar.

Este tipo de experiências musicais que faz fora dos Sonic Youth são também importantes para o trabalho que faz depois em conjunto com a banda? Ajuda-o, de certa forma, a libertar a sua criação?
Acho que se pode dizer isso. Mas nesta altura tornou-se uma parte muito natural da vida. Faço-o com alguma frequência. É uma espécie de criação e também muito pura, por ser espontânea, por não ser planeada. É muito o oposto de andar na estrada com uma banda a tocar canções e a tentar tocar canções que, até certo ponto, vão ser sempre as mesmas, todas as noites. O improviso é sempre diferente, o que acaba por ser até uma própria surpresa a nível pessoal e também um desafio.

Como guitarrista, estes concertos e experiências também podem ser aproveitadas para algo nos Sonic Youth?
Claro. Isso acontece sempre. E com todos. Porque todos nós fazemos outras coisas fora do grupo. E usamos estas inspirações quando a banda se reúne para trabalhar outra vez. Ajuda a manter as coisas equilibradas, de forma saudável. Pode ser muito refrescante tocar com variados músicos, experimentar coisas diferentes e depois levar essas ideias de volta para os Sonic Youth.

Vai passar uns dias aqui em Portugal, depois com dois concertos dos Sonic Youth, no Coliseu de Lisboa e Coliseu do Porto. São boas as memórias dos shows por cá?
Muito boas, mesmo. Sinto que os meus tempos em Portugal foram mesmo muito especiais e estou ansioso para voltar.

 

Falando um pouco dos Sonic Youth: como é que ao fim de 30 anos de banda convivem uns com os outros, agora com famílias pelo meio e tudo mais?
São apenas questões logísticas. Ainda mantemos o estúdio aqui em Nova Iorque onde trabalhamos. [Pausa] Algumas coisas mudaram, ao longo desse período de anos, mas a banda ainda se define por nós os quatro e pelo nosso interesse sobre as coisas, pelas coisas que tentamos alcançar. Quando nos juntamos, em certos aspectos, há algumas coisas que mudaram – sobretudo as famílias e mudar de casa – mas há aspectos que não mudaram nada. Há uma personalidade constante em cada um de nós. E acho que temos uma confiança muito grande no facto de fazermos algo interessante quando os quatro estão juntos...

Ainda mantém as mesmas fórmulas de trabalho, com uma grande democracia em estúdio?
Sim, é uma banda em que cada um tem direito à opinião e toda a gente trabalha para construir as canções, de maneira igual. Mas a forma como se criam canções, ao fim de mais de 30 anos, mudou um bocadinho. Queremos mudar as coisas, porque queremos inovar, mas não podemos mudar quem somos.

A propósito das famílias: é verdade que o seu filho mais velho, o Cody, também participou no último disco, “The Eternal”?
Acho que ele gravou algumas coisas, mas não chegou a tocar no disco. Fez foi algumas das fotografias do disco!

Ele também é músico, não é? Acha que foi buscar muitos genes artísticos ao pai?
Bem, não sei, mas espero que sim. Ele vai fazendo a música dele, é muito bom fotógrafo e há muitos interesses que partilhamos, nesse sentido.

Também o ajuda na música dele, ou vice-versa? Ele também lhe dá opiniões sobre a sua música?
Eu não o ajudo muito. Falamos algumas vezes, mas acho que há uma distância saudável. Ele sabe tanto o que nós [Sonic Youth] fazemos musicalmente que acho é melhor deixá-lo fazer as coisas por ele e não moldá-lo face às minhas ideias. Prefiro dar-lhe espaço.

No ano passado lançaram o “The Eternal”, mas já se diz que os Sonic Youth estão a pensar noutro disco e a querer ir para estúdio.
Bom, para já não estamos a pensar no novo disco. Ficámos muito felizes com o “The Eternal”, porque diz muito sobre o estado actual da banda. Sentimos que o disco foi muito bem sucedido e a digressão que fizemos também foi excelente. Foram uma série de canções que deram um enorme prazer tocar ao vivo. Por tradição este ano já estaríamos a pensar fazer outro álbum, mas tivemos tanto sucesso que voltar ao estúdio era repetir-nos. Então queremos fazer uma pausa este ano, aproveitar cada um de nós para projectos pessoais, afastarmo-nos um bocadinho da banda porque isto não pode ser um ciclo que arranca automaticamente.

É como o vinho: convém deixar descansar para depois saber melhor.
Exactamente!

Mas estão a preparar um DVD para este ano, certo?

Há muitos projectos que estamos a preparar. Esse DVD é sobre uma série de concertos que fizemos em 2008, do disco “Daydream Nation”. Vamos misturar imagens desses concertos com imagens de nós a gravar e a tocar esse disco em 1988 e 1989. Também temos um filme de 1991 a tentar publicar em 1991 e outro, imagens nunca vistas da digressão de 1986, do disco “EVOL”. Vamos ver se sai este ano.

Gostava de saber também a sua opinião sobre a cidade que vos viu evoluir, Nova Iorque. É um local especial em termos da história da música e da arte, sempre foi. Mas há quem diga que existe uma era artística antes e depois do mayor Rudolph Juliani, que acabou por influenciar o movimento. O que acha disto?
Bem, isso é verdade, existem essas duas eras. Mas cada uma delas tem coisas boas e coisas não tão boas. Mas de uma forma geral, Nova Iorque é uma cidade que vive e respira sobre os diferentes períodos, está em constante evolução. É um pouco o fascínio do local: há sempre coisas muito poderosas a acontecer, mesmo que sejam completamente diferentes de um tempo para o outro. Falando especificamente do que fez Juliani, o que aconteceu foi que, quando chegou, a cidade era muito mais sem lei e perigosa, mesmo fisicamente! Era complicado viver, havia muitos elementos de perigo, nos anos 70 e 80. Mas havia liberdades e podia encontrar-se um sítio barato para viver. É importante não esquecer que é uma ilha e funciona isoladamente. Eu comparo muito a Berlim, antes de o mundo cair – no sentido de estar muito isolada dentro dos EUA, com as suas ideias e estruturas. O que o Juliani fez foi limpar a cidade em vários sentidos. Poderia ter uma certa sujidade encantadora e isso perdeu-se. Também ficou uma cidade cara para viver, mas também mais segura. Hoje em dia é mais ou menos como outra cidade norte-americana, com lojas que nunca se viam, por exemplo, o K-Mart, que há em todo o lado. Perdeu algum sentido de individualidade, mas ganhou a segurança.

Ainda assim, sente falta desses dias, de quando era diferente?
Bem, nem por isso, porque experienciei e vivi esses dias. De forma geral, a ideia de mudança numa cidade costuma ser boa. Não lamento a perda desses aspectos. De certeza que no passado também aconteceram outras coisas que adorava ter visto, da mesma forma que fico feliz de ter vivido períodos como os do “Max’s Kansas City” ou o “CBGB” [night clubs de 1970, em Manhattan]. É apenas uma consequência da evolução das cidades.

 

 

Lee Ranaldo, a solo, no Chile, em Março de 2009

 

que vai tocar neste concerto que vai fazer com o Rafel Toral?
Vai ser um concerto entre aquilo que eu costumo tocar, mais o que o Rafael toca. Nós partilhamos muito os mesmos interesses na música e trabalhámos juntos algumas vezes, entre amigos e colaborações. Acho que é, basicamente, um encontro de improvisos. O Rafael vai tocar um par de gongos e eu vou tocar a guitarra eléctrica. Vamos ver o que acontece.

Este concerto tem algo a ver com aquilo que costuma fazer a solo, de experiências sonoras, com guitarras penduradas no tecto, ou aquilo que fez com os Text Of Light?
Até certo ponto será algo desse género. Tenho estado a experimentar a guitarra pendurada no tecto, através de cabos. Os Text Of Light é outra abordagem, mas também é um grupo de improviso, entre pessoas que partilham o mesmo vocabulário musical. Mas neste concerto com o Rafael acho que vai haver um certo aspecto meditativo. Vamos trabalhar entre os gongos e as guitarras.

Já alguma vez experimentou fazer isto com o Rafael?
Com o Rafael não. Mas já fiz algo similar com outra pessoa a tocar gongos, há uns dez anos. Mas tenho certeza que o Rafael tem qualquer coisa de especial para mostrar.

Este tipo de experiências musicais que faz fora dos Sonic Youth são também importantes para o trabalho que faz depois em conjunto com a banda? Ajuda-o, de certa forma, a libertar a sua criação?
Acho que se pode dizer isso. Mas nesta altura tornou-se uma parte muito natural da vida. Faço-o com alguma frequência. É uma espécie de criação e também muito pura, por ser espontânea, por não ser planeada. É muito o oposto de andar na estrada com uma banda a tocar canções e a tentar tocar canções que, até certo ponto, vão ser sempre as mesmas, todas as noites. O improviso é sempre diferente, o que acaba por ser até uma própria surpresa a nível pessoal e também um desafio.

Como guitarrista, estes concertos e experiências também podem ser aproveitadas para algo nos Sonic Youth?
Claro. Isso acontece sempre. E com todos. Porque todos nós fazemos outras coisas fora do grupo. E usamos estas inspirações quando a banda se reúne para trabalhar outra vez. Ajuda a manter as coisas equilibradas, de forma saudável. Pode ser muito refrescante tocar com variados músicos, experimentar coisas diferentes e depois levar essas ideias de volta para os Sonic Youth.

Vão passar uns dias aqui em Portugal. São boas as memórias dos concertos por cá?
Muito boas, mesmo. Sinto que os meus tempos em Portugal foram mesmo muito especiais e estou ansioso para voltar.

Falando um pouco dos Sonic Youth: como é que ao fim de trinta anos de banda convivem uns com os outros, agora com famílias pelo meio e tudo mais?
São apenas questões logísticas. Ainda mantemos o estúdio aqui em Nova Iorque onde trabalhamos. [pausa] Algumas coisas mudaram, ao longo desse período de anos, mas a banda ainda se define por nós os quatro e pelo nosso interesse sobre as coisas, pelas coisas que tentamos alcançar. Quando nos juntamos, em certos aspectos, há algumas coisas que mudaram – sobretudo as famílias e mudar de casa – mas há aspectos que não mudaram nada. Há uma personalidade constante em cada um de nós. E acho que temos uma confiança muito grande no facto de fazermos algo interessante quando os quatro estão juntos...

Ainda mantém as mesmas fórmulas de trabalho, com uma grande democracia em estúdio?
Sim, é uma banda em que cada um tem direito à opinião e toda a gente trabalha para construir as canções, de maneira igual. Mas a forma como se criam canções, ao fim de mais de 30 anos, mudou um bocadinho. Queremos mudar as coisas, porque queremos inovar, mas não podemos mudar quem somos.

Falando de famílias: é verdade que o seu filho mais velho, o Cody, também participou no último disco, “The Eternal”?
Eu acho que ele gravou algumas coisas, mas não chegou a tocar no disco. Fez foi algumas das fotografias do disco!

Ele também é músico, não é? Acha que foi buscar muitos genes artísticos ao pai?
Bem, não sei, mas espero que sim. Ele vai fazendo a música dele, é muito bom fotógrafo e há muitos interesses que partilhamos, nesse sentido.

Também o ajuda na música dele, ou vice-versa? Ele também lhe dá opiniões sobre a sua música?
Eu não o ajudo muito. Falamos algumas vezes, mas acho que há uma distância saudável. Ele sabe tanto o que nós [Sonic Youth] fazemos musicalmente que acho é melhor deixá-lo fazer as coisas por ele e não moldá-lo face às minhas ideias. Prefiro dar-lhe espaço.

O ano passado lançaram o “The Eternal”, mas já se diz que os Sonic Youth estão a pensar noutro disco e a querer ir para estúdio.
Bom, para já não estamos a pensar no novo disco. Ficámos muito felizes com o “The Eternal”, porque diz muito sobre o estado actual da banda. Sentimos que o disco foi muito bem sucedido e a digressão que fizemos também foi excelente. Foram uma série de canções que deram um enorme prazer tocar ao vivo. Por tradição este ano já estaríamos a pensar fazer outro álbum, mas tivemos tanto sucesso que voltar ao estúdio era repetir-nos. Então queremos fazer uma pausa este ano, aproveitar cada um de nós para projectos pessoais, afastarmo-nos um bocadinho da banda porque isto não pode ser um ciclo que arranca automaticamente.

É como o vinho: convém deixar descansar para depois saber melhor.
Exactamente!

Mas estão a preparar um DVD para este ano, certo?
Há muitos projectos que estamos a preparar. Essa história do DVD é sobre uma série de concertos que fizemos em 2008, do disco “Daydream Nation”. Vamos misturar imagens desses concertos com imagens de nós a gravar e a tocar esse disco em 1988 e 1989. Também temos um filme de 1991 a tentar publicar em 1991 e outro, imagens nunca vistas da digressão de 1986, do disco “EVOL”. Vamos ver se sai este ano.

Gostava de saber também a sua opinião sobre a cidade que vos viu evoluir. É um local especial em termos da história da música e da arte, sempre foi. Mas há quem diga que existe uma era artística, em Nova Iorque, antes e depois do mayor Rudolph Juliani, que acabou por influenciar a arte. O que acha disto?
Bem, isso é verdade, existem essas duas eras. Mas cada uma delas tem coisas boas e coisas não tão boas. Mas de uma forma geral, Nova Iorque é uma cidade que vive e respira sobre os diferentes períodos, está em constante evolução. É um pouco o fascínio do local: há sempre coisas muito poderosas a acontecer, mesmo que sejam completamente diferentes de um tempo para o outro. Falando especificamente do que fez Juliani, o que aconteceu foi que, quando chegou, a cidade era muito mais sem lei e perigosa, mesmo fisicamente! Era complicado viver, havia muitos elementos de perigo, nos anos 70 e 80. Mas havia liberdades e podia encontrar-se um sítio barato para viver. É importante não esquecer que é uma ilha e funciona isoladamente. Eu comparo muito a Berlim, antes de o mundo cair – no sentido de estar muito isolada dentro dos EUA, com as suas ideias e estruturas. O que o Juliani fez foi limpar a cidade em vários sentidos. Poderia ter uma certa sujidade encantadora e isso perdeu-se. Também ficou uma cidade cara para viver, mas também mais segura. Hoje em dia é mais ou menos como outra cidade norte-americana, com lojas que nunca se viam, por exemplo, o K-Mart, que há em todo o lado. Perdeu algum sentido de individualidade, mas ganhou a segurança.

Ainda assim, sente falta desses dias, de quando era diferente?
Bem, nem por isso, porque experienciei e vivi esses dias. De forma geral, a ideia de mudança numa cidade costuma ser boa. Não lamento a perda desses aspectos. De certeza que no passado também aconteceram outras coisas que adorava ter visto, da mesma forma que fico feliz de ter vivido períodos como os do “Max’s Kansas City” ou o “CBGB” [night clubs de 1970, em Manhattan]. É apenas uma consequência da evolução das cidades.




Ricardo Ribeiro: Tudo isto é fado

 

Ricardo Ribeiro tem 28 anos, uma voz e alma de fadista como se encontra pouco. Aqui fica a entrevista completa que saiu na edição de hoje do METRO.

 

Este disco chama-se "Porta do Coração". E é uma porta aberta.
É. Porque o fado nasce à porta do coração e morre à porta dos lábios. Acho que toda a música tem a ver com o coração, mas, ao contrário do que muitos pensam, o fado não é uma música pobre: é uma música simples. Vive muito da força emotiva que o fadista lhe dá e vive muito da capacidade do estilo. Uma das coisas mais importantes no fado - e isto foi-me incutido, foi-me ensinado pelas pessoas mais antigas com quem eu lidei - é criar um estilo próprio de cantar. E o fado vive sobretudo disso. E do coração, ou seja, da carga emocional que tens para lhe dar. E depois o fado é uma coisa que acontece, não é uma coisa sobre o qual temos domínio. Por isso é que as pessoas ficam arrepiadas – não temos isso ao no nosso domínio. O fado é que me deixa cantá-lo a ele. E depois cumpro a minha função.

Diz que o fado também lhe foi ensinado. Mas o que se ensina e o que é que se pode aprender?
Há erros crassos que se dão em qualquer canção. Mas houve pormenores que me corrigiam, como a dicção, as divisões. O fado é capaz de ser das poucas do mundo em que a música obedece à letra – e vice versa. Diziam-me "Não faças dessa forma, faz da outra"; "Olha que aí não podes acentuar...", por exemplo. Uma coisa é o fado enquanto canção, e poesia. Outra é enquanto a alma e o fenómeno completo. Ensinaram-me os pequenos pormenores.

Mas o resto não é ensinado.
O resto não. É a capacidade de interpretação e, sobretudo, fazer com que o fenómeno aconteça.

E como é que o fado apareceu na sua vida?
Em criança recordo-me de ouvir a minha mãe a fazer a lida da casa e cantava fados, com uma voz de pregão lindíssima. Ainda hoje sei todas as melodias que ela cantava. A minha tia Suzete era uma verdadeira aficionada do fado e tinha montes de discos, de vinis, de cassetes. Eu ouvia aquilo em casa e aquilo fascinava-me... não sei explicar. Era uma criança, pelo amor de Deus! Tornava-se algo tão fascinante... Depois foi a minha vida, com a minha adolescência, tive os meus problemas, não interessa... Até nem foi muito normal, mas eu posso queixar-me é de mim e não da vida. Eu alimentava-me apenas daquilo e queria cada vez mais. É como estar apaixonado por uma mulher: quer-se sempre mais, aproximar-se dela e descobrir o que ela é.

Era o fado que o ia completando?
Quem sou eu à idade que tenho para chegar a alguma conclusão da vida, mas uma das coisas que me fascina imenso e me deixa bastante pensativo é a paixão que faz mover o fado. A paixão que me faz mover perante ele. E acho que o fado precisa de cada vez mais de quem o ame, porque tudo isto vive sobretudo de uma coisa que se sente, que é a paixão. É gostar muito de uma coisa e torná-la maior.

Mas uma coisa era ouvir o fado e consumir o fado. Outra coisa era cantá-lo. Como é que passou para a interpretação?


É simples: eu cantava por cima dos discos e um dia a minha tia levou-me a uma colectividade lá no meu bairro, à Académica da Ajuda. Estavam lá dois guitarristas: o senhor Carlos Gonçalves e o 'Ti Zé Inácio. Começaram a tocar e a determinada altura a minha tia disse-me "Vais cantar. Já sabes aquele fado todo, e  tal, vais lá". Eu não sabia o tom, fui ter com o violista e com o guitarrista e o apresentador pediu para tirarem o tom para mim. E nunca mais me esqueço: o' Ti Zé - que acabou por ser das pessoas que mais me ensinou e histórias do fado contou, olhou para mim e ele é assim gordo, é o Ti Zé Bola - de cigarro na boca, guitarra no colo, olha-me de lado e diz: “Ai ai ai... lá estão a meter as criancinhas a cantar”. E lá tira a afinação do fado e lá cantei. Depois tiraram-me outros tons e assim sucessivamente. Mas era uma criança e era uma graça.

Então quando é que se apercebe que tinha todo este talento?

 

A única coisa que percebi é que queria isto. Agora o valor e o interesse foi sempre dado pelas pessoas. E isso é a minha maior forma de gratidão para com as pessoas é não as desapontar e continuar a cantar e a lutar. E daí esta coisa do disco ser um pequeno presente para a família do fado. Foram essas pessoas que me tornaram algo de interessante no fado. Independentemente do meu talento. Eu ambicionei fazer outras coisas na vida, mas o fado estava sempre presente: eu ia para a escola e cantava na festa da escola. Mas uma coisa é certa: sabia que tinha talento e um certo jeito e as pessoas é que notaram algo em mim. E porque o fado assim deixou.

Como foi a adolescência? Não é normal um jovem de 28 anos viver e respirar tanto o fado como o Ricardo o fazia.
Eu sempre tive o defeito, ou a virtude, de conviver com pessoas muito mais velhas do que eu. Gostava porque, enfim, fascinavam-me as conversas, as histórias. No colégio onde estudei conheci um homem extraordinário: o senhor padre Manuel Alves, que tinha uma sabedoria para lidar com adolescentes e um coração de ouro. Mas nas pessoas mais velhas fascinava-me a forma como eles falavam... é evidente que tinha amigos da minha idade, mas de facto, onde passava mais tempo e me sentia bem era com os mais velhos. Sentia que ali é que estava a sabedoria e o meu avô sempre me ensinou que "onde me cabe o comer, cabe-me o saber".

Falando então do disco: este "Porta do Coração" é o seu segundo álbum. Que fados são estes que canta aqui?
São os fados que eu sempre cantei. Tirando uma ou outra melodia, que aparece só agora ou que cantava de vez em quando, são os fados que sempre cantei, os poemas que sempre gostei. Não tem nada de espanto. Se terá de inovador será o público, as pessoas, os amigos, que vão dizer.

Aos 28 anos tem já uma maturidade muito grande na sua voz. Parece que puxa para o disco o fado mais tradicional, das casas de fado.
Não sei! É uma questão de se perguntar a Deus... e ao Diabo!

Também ajuda, o Diabo?
Sim, Deus é bom... mas o Diabo também não é mau.

Outro elogio tem de ir também para o seu violista.
É! É um espectáculo. O Jaime é fabuloso. Tem uma capacidade de criar ambientes fenomenal. Depois tem fado nele. Às vezes, na brincadeira, costumo dizer que é um carro de assalto: estamos todos em bloco, depois o sabor dos corridos e a maneira como é marcado pelo Joel Pimenta é impecável. Às vezes dou por mim a ouvir e a dizer: “Mamma Mia! Mais um pormenor que não tinha reparado!” E depois somos grandes amigos, o que torna tudo mais fácil.

Onde é que gostava de mostrar este disco? Nas casas de fado ou em grandes salas?
Onde Deus o levar! Onde Deus e as pessoas acharem que ele deve ir. Juro-te, é onde for! Onde as pessoas tiverem vontade que eu vá oferecer-lhes aquilo que eu sei. Eu não me posso queixar da vida: as pessoas têm sido tão minhas amigas, tão boas para comigo... A alma não tem hora, nem espaço, nem lugar. Acontece onde tiver de acontecer. Pode acontecer aqui neste momento, com uma intenção de uma frase que eu te diga. Eu arrepio-me tantas vezes com as frases de alguém. Aí dá-se um fenómeno e pode ser considerado fado, hein? (pisca o olho e sorri).

Além do fado participou noutros desafios: no filme “Fados”, de Carlos Saura, e também no disco “Em Português” do libanês Rabih Abou-Khalil. Que disco é esse?
Basicamente o que se passou foi: Um alaudista libanês, dos mais conhecidos do mundo, um ser humano extraordinário,  e depois como músico é um fenómeno. Cantou poemas portugueses, de Mário Rainho ou José Luís Gordo, que eu ajudei a escolher para as suas melodias. Ele conheceu-me numa peça do Ricardo Pais, que me orgulho muito, chamada “O Cabelo Branco É Saudade”. Na estreia, o Rabih veio ouvir-me e no fim disse-me: “Tu és mais do que um cantor. És algo que eu não sei explicar...” O Ricardo Pais fez depois outro projecto que foi pedir ao Rabih uma versão de “A Casa da Mariquinhas”, o poema do Silva Pais que o 'Ti Alfredo Marceneiro cantou como nunca mais ninguém há-de cantar. E ele gostou muito do que eu fiz, de como cantei e disse: “Ao fim de três tentativas, cantas isto como se fosse a tua língua original...” E foi assim: por entre cigarros, conversas e cafés.

Este estilo árabe é também um estilo que gosta muito. Tem alguma coisa a ver com o fado?
Tem certas frases melódicas que podem lembrar o fado. Mas ouço um cantor ou cantora e é como um fadista: as inflexões e micro-tonalismos... mas são afinações diferentes, com escalas diferentes, mas são pormenores que agora não interessam nada.

Os árabes também estiveram entre nós durante tanto tempo...
Sim, claro! Oito séculos. Nós às vezes queremos renegar certas coisas, mas o povo árabe é um povo maravilhoso.

 

 

Fotos de Isabel Pinto

 

 

O vídeo do single de estreia, "Moreninha da Travessa", realizado por João Botelho.