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Jornal Metro

O maior jornal diário do mundo

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... E a Medicina criou o homem

Transplantes, próteses e regeneração das células são já realidade para a Ciência actual. Mas o METRO foi mais longe, e quis saber como seria um homem criado de raiz. Pegar nas peças do puzzle e juntá-las criando o nosso Super-homem. Os especialistas mostram-se reticentes, mas num futuro longínquo... quem sabe...

 

As entrevistas completas com Hélder Cruz (à esquerda), especialista em Biotecnologia e responsável da Ecbio e Hélder Maiato (à direita), do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto.

 

 

 

Estes avanços na Medicina permitem modificar o Homem ao máximo... Onde chegaremos?

H.C. Chegaremos ao ponto de podermos mudar as várias "peças" do organismo, aumentando a longevidade do mesmo, mas se não resolvermos o envelhecimento do cérebro e do sistema nervoso, poderemos chegar ao limite de ter um corpo quase jovem, funcional, mas não nos lembrarmos do que fazer com ele, por o cérebro estar envelhecido. Isto no limite de atingirmos elevada longevidade...

H.M. Não se pretende "modificar" mas sim regenerar ou substituir algo que já existia mas que deixou de funcionar. Claramente o caminho que se vislumbra num futuro não muito longínquo é o caminho da auto-regeneração com tecidos da própria pessoa, produzidos por células da própria pessoa. Nao é claro de que forma uma mulher ou um homem mais bonito (quando estas possibilidades se estendem à estética) os torne melhor seres humanos, para além do facto de ser mais ou menos agradével olhar para eles!

 

Até que ponto poderemos criar um super Homem?

H.C. Não me parece que tão cedo isso aconteça, mas iremos prolongar cada vez mais a duração média da vida humana.

H.M. Super-homens são aqueles que sabem viver a vida mesmo que seja curta e não aqueles que vivem mais tempo ou são indestrutíveis. Não creio sequer estarmos perto da imortabilidade (fisica!). Simplesmente iremos ter outras "ferramentas" ao dispôr da Medicina, mais direccionadas, mais inteligentes, sem perigo de rejeição e sem efeitos secundários.

 

E criar um Homem de raiz?

H.C. Fazer uma cópia de um ser humano já é tecnicamente possível, através da utilização de células de um ser já existente, embora seja eticamente reprovável. No entanto, criar um ser humano de raiz a partir dos vários constituintes, como se fosse um puzzle, não me parece, mesmo a longo prazo, possível, mas a ciência muitas vezes avança mais e por caminhos que não podemos prever.

H.M. Por que não fazê-lo da forma natural que todos nós sabemos? Parece-me mais fácil...e menos demorado! Mesmo assim, penso que abrindo caminho a outras formas de "criação" temos mais a ganhar do que a perder, a não ser o preconceito.

 

As células estaminais e o avanço da Medicina permitirão no futuro fugir a todas as doenças?

H.C. Penso que não. As células estaminais, que são de vários tipos e são obtidas de várias fontes, têm as suas virtudes e limitações. As células estaminais neo-natais e adultas, como as células do tecido do cordão umbilical, com as quais trabalho, são seguras e dão origem a muitos tipos de células especializadas e penso que, por isso, a sua utilização na regeneração de tecidos e órgãos é de uma importância enorme. Já as células embrionárias apresentam grande potencial mas para aplicações médicas são ainda perigosas pela sua segurança de introdução dentro do organismo não estar assegurada. .

H.M. Nem todas as doenças se resolvem recorrendo a auto-regeneração. Penso que muitos tipos de cancro por exemplo continuarão a ter que ser combatidos de outra forma.

 

Já se transplantam fígado, coração, rins... É possível transplantar cérebro?

H.C. O problema das células nervosas é fazer que as mesmas comuniquem após ter sido feito um corte entre elas. Veja-se a dificuldade das terapias dos seccionados da espinal medula, tetra- ou paraplégicos. Assim, penso que será muito difícil transplantar cérebro num horizonte, mesmo que alargado. Depois, há a questão filosófica: mesmo transplantando um cérebro com sucesso tecnicamente, o resultado seria uma pessoa com um cérebro novo ou uma pessoa com um corpo novo? Parece-me que seria mais a segunda pois a consciência e raciocínio estarão no cérebro e o que aconteceria seria o cérebro transplantado acordar num novo corpo que desconhece...

H.M. É obvio que não. O cérebro é ainda uma "caixa negra" envolta de mistérios que nos ultrapassam. É sem dúvida o órgão que mais mal conhecemos. É possivel, contudo regenerar alguns tecidos nervosos recorrendo a terapia com células estaminais nervosas.  
 

A transplantação, se chegássemos no futuro a um nível máximo, poderia pôr em perigo a sociedade? Órgãos roubados aos pobres para vender no mercado dos ricos, por exemplo, que já existe... 
H.C. O tráfico de órgãos já existe...Penso que os perigos que refere já são existentes e estão presentes actualmente, pelo que acho que são muito graves e podem tender a agravar-se, podendo representar um perigo a ter em conta.

Espero que tenha ajudado.

H.M. E continuará a existir até que haja uma alternativa, a auto-regeneração é um bom exemplo de um possível caminho a seguir. É tambem importante que as alternativas sejam economicamente viaveis e competitivas em relação ao mercado negro.