Horas antes de subir ao palco, Corinne Bailey Rae confessou ao METRO que adora tocar ao ar livre. Esperava-a um jardim fantástico – o Parque Marechal Carmona, Cascais –, um ambiente tranquilo, uma noite de Verão e uma lua cheia memorável. “The Sea” é o mais recente álbum da cantora britânica, que passou este sábado pelo Cool Jazz Fest. Depois de uma pausa no trabalho, após a morte do marido, há dois anos, Corinne regressa mais madura e experiente. Recuperou os temas que já tinha começado e pôs de pé um álbum em que a variedade de estilos é palavra de ordem.
O que espera para o concerto desta noite?
Acho que vai ser um concerto muito simpático. Adoro tocar ao ar livre e adoro festivais de jazz. Há algumas influências de jazz no meu álbum, também há canções mais agressivas e talvez mais pop e rock. Há uma grande variedade de estilos e espero que o público goste.
Quais as principais diferenças entre este álbum e o primeiro, lançado em 2006?
Este álbum tem muitos estilos. Muitas canções de amor, mas também sobre política, espiritualidade, experiências pessoais, coisas que vivi. É um álbum mais vivo, mais caótico, com mais dramas da vida, mais experimental que o primeiro álbum.
Tem uma música favorita neste álbum?
Tenho muitas favoritas. Na verdade acho que todas o são. Quando as escrevemos estamos sempre a voltar a elas para as acabar, seja no refrão, nos versos… Adoro o “Closer”, é muito intimista, é sobre não gostar de alguém para não se sentir responsável por essa pessoa. Gosto muito do “The Blackest Lily”, “Diving for hearts”. Adoro a melodia do “I would like to call it beauty”. É uma excelente canção. Podia continuar por aqui fora, porque sim… gosto de todas.
Por que escolheu a “The sea” como nome para o álbum, então?
Achei que era uma boa metáfora para todas as experiências que nos ultrapassam e que são tão poderosas que nos levam a algum lugar. O mar é um fenómeno natural fantástico, é de onde vem a vida, e pode suster-te, mas também te pode destruir. É algo que é maravilhoso mas que ao mesmo tempo é algo que nos aterroriza. Por isso achei que era uma boa forma de olhar para o amor, para a perda, e para a espiritualidade. Era uma boa imagem para essas três coisas.
Essa música é sobre o seu avô, certo?
Sim, ele teve um acidente e morreu no mar. E os filhos deles estavam lá e viram tudo acontecer à sua frente. É um tema que mostra que as coisas nos acontecem, e não as conseguimos arrancar de nós. E elas têm, de facto, um grande impacto em nós, e não conseguimos fugir. Elas vão estar sempre lá. E escrevi esse tema antes da minha própria experiência de perda. Por isso era algo em que eu já pensava.
“Are you here” é o tema que dedica ao seu marido. A morte dele mudou-a? É uma mulher diferente agora?
Não me sinto mudada. Sinto que foi importante voltar a trabalhar no álbum. Já tinha escrito seis ou sete músicas e fui ouvi-las e fiquei aliviada porque percebi que era a mesma pessoa que as tinha escrito. Acho que somos um pouco um produto das experiências que temos, sinto que tive uma experiência que nunca tinha vivido. Sinto-me mais experiente, mas ainda me sinto a mesma pessoa. Aliás… Sinto-me é velha (risos)
Não está nada velha! Sei que percebeu há pouco tempo que as palavras não são suficientes expressar tudo o que sente. Porque acha isso?
Há muitas coisas que queremos comunicar e as palavras parece que não são fortes o suficiente. E é por isso que a música é fantástica. Podes cantar uma nota e isso pode mudar completamente uma palavra. Podes esticar a nota, e andar em tons diferentes. E podes repetir as mesmas palavras com diferentes acordes, ou instrumentos. A música traz novos significados. Por isso, a música é excelente para trazer diferentes sentidos às palavras.
Em criança tocou violino e na altura não se conseguia imaginar como cantora. Quando percebeu que sabia cantar?
Eu adorava tocar na minha banda, na altura tinha 15 anos. E começámos a dar concertos mais à seria um ano depois. Acho que foi quando me começaram a dizer que sim, que eu cantava bem. Quer dizer, recebemos sempre elogios da família, dos amigos, dos pais dos amigos. E pensava que só o diziam para ser simpáticos. Foi mais ou menos por ouvir as opiniões das outras pessoas e por sentir que podia escrever canções com coisas que pensava na altura. Mas foi uma autêntica revelação para mim.
E o violino? Não voltou a tocar?
Ainda o tenho, mas não é como andar de bicicleta, que nunca se esquece. Sinto que os meus dedos estão maiores e estão mais habituados à guitarra. Talvez volte a tocar um dia.
E se não fosse cantora, o que seria hoje em dia?
Ai, não sei… adorava fazer algo relacionado com arte, criatividade. Ai, mas não sei mesmo. Adoro a música… talvez fosse pintora, realizadora, escritora. Adoro a parte da criatividade e poder trabalhar com as mãos.
Já tinha estado em Portugal…
Sim, em Lisboa, julgo que em 2006. É muito bom voltar. É um país lindo. Adoro a mistura de culturas e adorava voltar em férias por exemplo.
“Put your records on” é uma das suas músicas mais conhecidas. Se eu lhe pedisse para escolher alguns temas para por a tocar, quais seriam?
Há uma música que gosto imenso que é “Fall in love”, da Erykah Badu. É uma canção que não é habitual. O refrão diz “não vais querer apaixonar te por mim”. É empurrar alguém, colocá-lo de parte. Depois há o“I only have yes for you”. Adoro essa música. Curtis Mayfield: “Love to the people”. Talvez um tema da Madonna, mesmo dos anos 80 e um reggae “Is this love” do Bob Marley, é linda.
DESAFIO METRO
O que vem a seguir? What´s next Corinne?
Próximo concerto: o que vou dar em Singapura, daqui a dois dias
Próximo filme: Um da Sofia Coppola, adorei os últimos dela. “Maria Antoinette” e “Lost in translation”.
Próxima viagem de férias: Leeds, em Setembro, é o regresso a casa. Não vou lá há 3 meses. Em Londres dizemos “staycation”.
Próximo livro: “A long story”, de Adrian Levy
Próximo álbum: “Wake up the nation” de Paul Weller




